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Guerra de torcidas revela muito do que somos e pouco do que são os argentinos. Por Moisés Mendes

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Guerra de torcidas revela muito do que somos e pouco do que são os argentinos. Por Moisés Mendes

Uma das frases mais repetidas, em meio ao embate dos que torcem contra e a favor da Argentina, é esta: não importa sua torcida, porque isso não muda nada. É um decreto de quem pretende ser mais esperto do que a média envolvida na guerra da final da Copa.

É mais ou menos um alerta: seja racional e perceba que Milei, Messi e os argentinos em geral não se importam com o que você pensa deles. Pois se interessam, sim. Pela opinião de todos os que prestam atenção na Copa.

Uma torcida individual não equivale a um voto, como acontece numa eleição, mas importa pelo que significa. Uma torcida, em campo ou longe dele – e agora também nas redes sociais –, significa a energia de engajamentos que mudam comportamentos e humores.

Se não fosse assim, se torcer a favor ou contra a Argentina não significasse nada, esse debate não existiria. Só existe porque há algum sentido nessa guerra. E a ciência social já se encarregou, com abordagens variadas, de ver os sentidos desses sentimentos.

Então, diga numa boa por que você torce pela Argentina ou pela Espanha e respeite a ‘irracionalidade’ dos que pensam diferente. Desista de achar que a sua posição é mais inteligente e mais explicável do que a dos outros e pense o seguinte: também a alegada neutralidade, numa hora dessas, não significa a garantia de mais dissernimento, pelo distanciamento e pela indiferença.

Ah, dirão, mas uma vitória da Argentina significará o fortalecimento de Milei. Não é bem assim. A seleção deles não tem vínculos com a direita como a seleção brasileira tem aqui. O futebol argentino tem muito mais conexões com o peronismo e as esquerdas do que com a direita.

Não há evidências de que torcer contra a Argentina signifique sabedoria, levando-se em conta o contexto político do país. O futebol, os clubes, as torcidas, os estádios – tudo na Argentina tem relação com o peronismo. O maior ídolo argentino, o deus Maradona, era socialista e filiado formalmente ao Partido Justicialista criado por Perón.

A eleição para presidente será somente em outubro do ano que vem. Tudo o que Milei capitalizar hoje será diluído com o tempo até a eleição. E agora o argumento definitivo: o povo argentino merece o sacrifício do nosso apoio muito mais do que a nossa torcida contra a seleção deles, só para que Milei também seja o derrotado.

Não entendam que será automático e fácil para a direita o sequestro político de uma possível vitória contra a Espanha por Milei e seus vigaristas no poder. Não comparem Argentina e Brasil.

E sejam cautelosos com a repetição de que a Argentina é um país racista, principalmente por causa de manifestações de torcedores nos estádios e episódios recentes no Brasil. Os brasileiros talvez sejam tão racistas quanto os argentinos.

Aquiete a raiva histórica contra os hermanos e entenda que, se nós não temos Neymar como referência de atleta e cidadão, eles têm Messi. A inveja não nos ajuda. Torcer pela Argentina ou contra a Argentina diz mais a nosso respeito do que a respeito deles.

Essa guerra hoje pode revelar mais do que somos do que a torcida frouxa pelo Brasil da Seleção alienada e covarde que saiu cedo da Copa.

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