O governo de Donald Trump condicionou a recuperação de quase 60 mil toneladas da cota brasileira de açúcar nos Estados Unidos à apresentação de “propostas comerciais satisfatórias”. Sem um entendimento, Washington ameaça redistribuir o volume a outros países exportadores.
O subsecretário de Agricultura dos EUA, Stephen Vaden, apresentou a exigência em um simpósio da American Sugar Alliance na segunda (3). A adida do Ministério da Agricultura em Washington, Ana Lucia Viana, relatou as declarações em um comunicado enviado a Brasília.
Para o próximo ciclo, que começa em outubro e dura um ano, os EUA reduziram a parcela do Brasil de 155,9 mil toneladas para 100 mil toneladas. O corte representa 35,9% da cota brasileira e deixa 55.993 toneladas métricas em valor bruto sem destinação definida.
“Vaden afirmou expressamente que o Brasil poderá recuperar o volume retirado de sua alocação caso apresente aos Estados Unidos propostas comerciais consideradas satisfatórias”, registrou o relatório. O documento acrescenta que, sem acordo, a quantidade poderá seguir para outros países.
Cota reduzida enfrenta tarifas e disputa sobre etanol
Os Estados Unidos reservam anualmente 1,1 milhão de toneladas para importação de açúcar bruto de cana, em cumprimento a compromissos com a Organização Mundial do Comércio. Produtos dentro da cota pagam tarifa reduzida; fora dela, enfrentam uma barreira de cerca de US$ 340 por tonelada.
A representante brasileira procurou o Escritório do Representante de Comércio dos EUA para questionar se o corte seria permanente ou se haveria recomposição parcial. Ela argumentou que o Brasil preencheu integralmente a cota vigente, demonstrando capacidade de fornecimento e demanda da indústria americana, mas não recebeu detalhes além dos anúncios públicos.
O comunicado não especifica quais concessões Washington considera satisfatórias. Há anos, os EUA pressionam o Brasil a reduzir a tarifa de 18% sobre o etanol americano, enquanto governos brasileiros já sinalizaram disposição para discutir o tema se o açúcar entrasse em uma negociação de abertura comercial.
No ano passado, o Brasil exportou 292,4 mil toneladas de açúcar bruto aos Estados Unidos, conforme dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia. Produtores do Nordeste ocupam a cota tarifária, enquanto o Sudeste fornece principalmente as vendas que ultrapassam esse limite.
As exportações fora da cota ainda enfrentam sobretaxas cumulativas de 37,5%, baseadas em duas investigações comerciais do governo americano. O açúcar incluído na cota também pagará uma tarifa adicional de 25%, vinculada a uma dessas apurações.
A República Dominicana recebeu a maior parcela para o novo ciclo, com cerca de 189 mil toneladas, seguida pelas Filipinas, com 145 mil toneladas. Mesmo após o corte, o Brasil mantém a terceira maior alocação entre os fornecedores.
Procurados, o Ministério da Agricultura e o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos não responderam. A Unica afirmou que o Brasil é um parceiro confiável, capaz de manter fornecimento regular de açúcar de alta qualidade, e disse esperar negociações construtivas para evitar novas barreiras comerciais.