O Comando Vermelho (CV) ampliou sua estratégia de expansão no Rio de Janeiro e passou a disputar áreas consideradas estratégicas para o acesso a rotas terrestres e marítimas. Investigações policiais apontam que a facção não busca apenas conquistar comunidades, mas também estabelecer corredores que levem aos Portos do Rio, de Itaguaí e à Baía de Guanabara.
Atualmente, segundo informações de reportagem de O Globo, o grupo criminoso mantém confrontos simultâneos com milícias e integrantes do Terceiro Comando Puro (TCP) em diferentes regiões da cidade. Entre os pontos de tensão estão Rio das Pedras, comunidades das Vargens e do Recreio, Cordovil e áreas entre Campo Grande e Guaratiba.
Segundo o mapeamento feito pelas forças de segurança, a expansão territorial poderia aumentar o poder financeiro da organização e facilitar tanto o transporte de drogas e armas quanto o envio de entorpecentes para mercados internacionais.
Avanço pela Zona Oeste
Na Zona Oeste, o CV já controla parte de Bangu e disputa áreas como a Favela do Barbante, em Campo Grande. A região é considerada estratégica por sua ligação com Itaguaí e pelo acesso às áreas próximas ao porto.
Em 27 de julho, 11 criminosos armados com fuzis e usando roupas camufladas foram flagrados por câmeras de segurança entrando em uma área de mata entre Campo Grande e Guaratiba. Segundo as investigações, o grupo tentava chegar a uma comunidade dominada por milicianos.
Em Santa Cruz, entretanto, a facção ainda não conseguiu avançar sobre comunidades sob domínio da milícia. Na avaliação dos investigadores, a tentativa de expansão para esses pontos está relacionada à busca por novas rotas de circulação.
Na região do Itanhangá, na Zona Sudoeste, o CV mantém disputa por Rio das Pedras. Há também confrontos nas Vargens, no Terreirão, no Recreio e em comunidades de Cordovil, na Zona Norte.
Entre os adversários está o Terceiro Comando Puro, que tem como uma de suas principais lideranças Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão. O criminoso comanda áreas como Parada de Lucas, Vigário Geral, Pica-Pau, Cidade Alta e Cinco Bocas, região conhecida como Complexo de Israel.
O delegado Paulo Saback, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), afirma que Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso, é apontado como responsável por ordenar invasões ligadas à expansão do CV. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, ele é alvo de 45 mandados de prisão.
Controle de rotas pode ampliar tráfico internacional
Para a polícia, o CV já exerce influência sobre uma parcela significativa das comunidades do Rio e tenta transformar o domínio territorial em controle logístico. A criação de corredores permitiria transportar drogas, armas e munições com maior facilidade.
Saback avalia que o acesso a regiões próximas ao mar poderia fortalecer a ligação da facção com o Porto de Itaguaí, o porto da capital e a Baía de Guanabara. O Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, também aparece como ponto estratégico por permitir conexões com a Niterói-Manilha, a Região Serrana e o Norte Fluminense.
A estratégia, segundo a investigação, poderia favorecer o envio de drogas para Europa e África, mercados nos quais a comercialização dos entorpecentes proporciona maior retorno financeiro. O acesso ao litoral também poderia facilitar a entrada de armas e munições.
Facção mantém grande poder de fogo
Não existe uma estimativa oficial sobre o tamanho do arsenal empregado pelo CV nos confrontos. As operações policiais, porém, revelam a presença de grande quantidade de armas de alto poder de fogo nas áreas de disputa.
Em uma operação realizada em junho de 2025 na Rocinha, cerca de 400 homens armados com fuzis foram registrados fugindo por uma área de mata. As imagens foram captadas por um drone equipado para realizar gravações em condições de baixa luminosidade.
Também em 2025, mais de 90 fuzis foram apreendidos nos Complexos da Penha e do Alemão durante uma operação que terminou com 122 mortos, sendo 117 suspeitos e cinco policiais.
Dinheiro do crime financia estrutura
As investigações apontam que o financiamento da estrutura criminosa ocorre por diferentes atividades ilegais. Entre elas estão roubos, extorsões e exploração clandestina de serviços, como televisão por assinatura e internet.
Em março deste ano, uma investigação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e de Inquéritos Especiais (Draco-IE) identificou um esquema de fraudes bancárias e lavagem de dinheiro atribuído a suspeitos de ligação com o CV. O grupo teria movimentado R$ 136 milhões em um ano.
Parte dos recursos era lavada por meio de criptoativos. Em junho, a Polícia Civil criou o Núcleo de Apoio às Investigações com Ativos Virtuais (NuCripto) para auxiliar delegacias na apuração de movimentações financeiras envolvendo organizações criminosas.
Polícia amplia operações contra facções
A Polícia Civil informou que mantém ações permanentes de inteligência, investigação e operações integradas para combater as estruturas financeiras, logísticas e operacionais das facções em todo o estado.
Segundo a corporação, o trabalho inclui a identificação e responsabilização de chefes, integrantes e colaboradores, além do cumprimento de mandados judiciais e da apreensão de armas, drogas e outros materiais utilizados nas atividades criminosas.
Entre as principais iniciativas está a Operação Contenção, criada para tentar impedir o avanço territorial do CV. De acordo com a polícia, a ofensiva já resultou na captura de mais de 370 criminosos e na morte de outros 137 em confrontos, além da apreensão de cerca de 480 armas, incluindo 190 fuzis, e mais de 51 mil munições.
Operação contenção reforça policiamento
A Polícia Militar afirmou ter intensificado o patrulhamento e adotado ações simultâneas em diferentes pontos para impedir confrontos entre grupos rivais e conter novas tentativas de expansão do CV.
Em uma semana, foram apreendidos 17 fuzis, 22 granadas e 60 armas curtas, entre revólveres e pistolas. Em uma operação na favela Nova Holanda, policiais do Batalhão de Ações com Cães também localizaram uma gráfica usada, segundo a corporação, para produzir notas falsas.
Ainda conforme o balanço divulgado pelas forças de segurança, a ofensiva registrou 329 prisões, 59 adolescentes apreendidos e a retirada de 139 toneladas de ba