A Polícia Federal e a Receita Federal afirmam ter identificado um esquema da casa de apostas Pixbet que usava CPFs de 549 pessoas mortas, laranjas e uma empresa offshore para movimentar recursos ao exterior e reintroduzi-los no Brasil. A apuração rastreou cerca de R$ 1,5 bilhão em remessas consideradas ilegais nos últimos cinco anos.
A investigação levou à operação deflagrada na quinta-feira, quando a PF cumpriu 17 mandados de busca e apreensão em cinco estados. Entre os alvos estão o empresário Ernildo Junior, dono da Pixbet, e o advogado Nelson Willians; a Justiça também autorizou o sequestro de bens de até R$ 1 bilhão.
Os investigadores dizem que o grupo recebia em reais os valores das apostas e enviava o dinheiro ao exterior sem autorização do Banco Central ou contratos de câmbio formalizados. Depois, os recursos retornavam ao país com uma aparência de regularidade, o que dificultaria a fiscalização.
Em representação apresentada à Justiça, a PF afirmou: “Todo o processo de envio de dinheiro para o exterior é fruto de uma simulação, ou seja, trata-se de dinheiro evadido”. O documento sustenta que a reintrodução dos valores no patrimônio dos envolvidos ocorria com a emissão de notas fiscais falsas.
Documentos em nome de mortos e operações com criptomoedas
O esquema usava documentos de respaldo cambial, conhecidos como ACAMs, em nome de centenas de pessoas já falecidas, algumas havia mais de 20 anos. A PF também apontou operações simultâneas de compra e venda de valores idênticos, que simulavam remessas internacionais embora o dinheiro permanecesse no Brasil.
Outro mecanismo descrito pelos investigadores envolve stablecoins, especialmente a USDT, para transferir recursos ao exterior fora dos controles financeiros tradicionais. A Anspace Pay, segundo a investigação, atuava como intermediária principal na manipulação dos documentos cambiais e nas compensações financeiras internacionais.
A Frente Corretora de Câmbio teria operado transações de câmbio eletrônico destinadas a uma conta offshore em Curaçao. Já a Brasfichas é apontada como uma “fintech paralela”, responsável por converter depósitos de apostadores em s de jogo e ocultar parte do fluxo financeiro.
A PF afirma que a offshore Pix Star Brasilian N.V., sediada em Curaçao, aparecia como tomadora de serviços de empresas brasileiras do grupo, como Brasgaming, Pixuo e Pixbet. Notas fiscais com descrições como “teleatendimento” e “marketing” justificariam transferências cujos valores, conforme os investigadores, eram definidos conforme a necessidade de caixa no Brasil.
Bank Tecnologia, BPAY e RIOPAG, também instituições de pagamento, teriam pulverizado transferências, quitado despesas e recolocado os recursos na economia brasileira. A investigação ainda aponta que familiares e terceiros ocultavam o controle de empresas e patrimônios; Morgana Maria de Farias Santos, irmã de Ernildo Junior, foi identificada como “laranja consciente”.
Entre os bens alcançados pelo sequestro judicial estão o helicóptero Airbus EC130 T2 avaliado em cerca de R$ 30 milhões, chamado de Betcóptero, um jato Phenom 100 e veículos de luxo, incluindo um Porsche. Nelson Willians declarou que a relação de seu escritório com a Pixbet é “estritamente profissional” e anunciou afastamento do escritório que leva seu nome; a defesa da Pixbet não se manifestou.




