Um homem apontado pela Polícia Civil como integrante de alta hierarquia do Comando Vermelho (CV), mesmo preso no sistema penitenciário do Rio de Janeiro, teria participado à distância de um chamado “tribunal do tráfico” que resultou em agressões e humilhações contra duas mulheres em São Gonçalo, na Região Metropolitana. O episódio ocorreu em maio, na comunidade do Risca Faca, no bairro Maria Paula.
De acordo com a investigação, as vítimas eram acusadas pelo grupo criminoso de aplicar golpes contra moradores da região. Elas teriam sido levadas para uma área de mata conhecida como Mineirão, onde, segundo a polícia, foram submetidas durante horas a agressões com socos, chutes e pauladas. Posteriormente, tiveram os cabelos raspados e foram obrigadas a caminhar pela comunidade sob escolta de homens armados, em uma exposição pública que teria sido determinada como forma de punição.
A Polícia Civil atribui a decisão da suposta punição a Flávio Vieira Bento, conhecido como “Mumu do Tuiuti”, apontado pelos investigadores como liderança do Comando Vermelho. Segundo a apuração, embora estivesse custodiado no Presídio Gabriel Ferreira de Castilho, o Bangu 3, ele teria acompanhado a execução das agressões por meio de transmissão à distância e participado da decisão sobre o castigo imposto às mulheres.
O caso ganhou repercussão depois que imagens das vítimas, com os cabelos raspados e visivelmente abaladas, começaram a circular nas redes sociais. A investigação também apura uma possível tentativa de interferência nos relatos apresentados às autoridades. Imagens de câmeras de segurança registraram as mulheres chegando a um cartório usando perucas e bonés e acompanhadas por dois homens. Posteriormente, elas apresentaram uma nova versão para as agressões, atribuindo os ataques a outras mulheres e afastando a participação dos suspeitos investigados.
Apesar da mudança nos relatos, a Polícia Civil afirma ter reunido outros elementos de prova sobre o episódio. Conforme informações divulgadas sobre a investigação, o caso resultou no primeiro indiciamento no estado relacionado ao crime de domínio social estruturado, previsto na Lei nº 15.358/2026, conhecida como Lei Antifacção. A legislação prevê penas de 20 a 40 anos para determinadas condutas praticadas no contexto de organizações criminosas ultraviolentas, grupos paramilitares ou milícias privadas que utilizem violência ou grave ameaça para exercer controle social ou territorial.
Segundo as informações divulgadas sobre o inquérito, 15 pessoas foram denunciadas e duas foram presas no decorrer do caso. A Secretaria de Estado de Administração Penitenciária informou ainda que, após identificar a suposta participação de Flávio Vieira Bento, ele foi transferido para a Penitenciária Laércio da Costa Pellegrino, o Bangu 1, onde permaneceu em isolamento. A pasta afirmou também que pretende solicitar sua inclusão no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD).
Para os investigadores, os chamados “tribunais do tráfico” são utilizados por organizações criminosas como instrumentos de intimidação e controle de moradores de territórios sob influência das facções. As decisões impostas por esses grupos não constituem procedimentos judiciais e não oferecem garantias legais como direito de defesa, contraditório ou julgamento por autoridade competente. As responsabilidades individuais dos investigados, entretanto, deverão ser examinadas pelo Poder Judiciário, observados o devido processo legal e a presunção de inocência.




