Temperaturas próximas de 35°C na Alemanha podem provocar uma sensação mais difícil de suportar do que a mesma marca em cidades brasileiras por fatores que vão além do termômetro. A duração dos dias, o padrão das construções e a baixa presença de ar-condicionado pesam durante as ondas de calor europeias.
Um dos elementos é geográfico: no verão do Hemisfério Norte, cidades europeias recebem muitas horas seguidas de luz solar. Essa exposição prolongada mantém o aquecimento por mais tempo, sobretudo quando as temperaturas já estão elevadas.
Em Belo Horizonte, no solstício de verão de dezembro, o sol nasce por volta das 5h e se põe perto das 18h30. Em Berlim, no solstício de junho, ele nasce antes das 4h e se põe por volta das 20h30, sem considerar o horário de verão europeu.
Os longos períodos de frio também moldaram as moradias da região. As construções europeias costumam reter calor, e as paredes levam mais tempo para resfriar quando uma sequência de dias quentes atinge o continente.
Prédios fechados e ar seco agravam os efeitos das ondas de calor
O ar-condicionado ainda não é comum em muitas residências e edifícios da Europa. Sem equipamentos para resfriar os ambientes, o calor acumulado dentro de casa pode aumentar a exposição de moradores, especialmente durante a noite.
O professor Nelson Gouveia, da Faculdade de Medicina da USP, afirma que a umidade do ar interfere diretamente na forma como o organismo regula a própria temperatura. “Na verdade, não é só temperatura, é a umidade do ar. Se está muito quente, o seu corpo vai aquecer, você vai trocar mais ou menos calor, dependendo também da umidade do ar”, disse.
O calor europeu costuma ser mais seco, enquanto o brasileiro tende a ser mais úmido. Quando o corpo não consegue equilibrar essa troca de calor, há risco de desidratação e, em situações extremas, de falência de órgãos. Uma onda de calor histórica em junho deixou mais de 10 mil mortos na Europa.
A meteorologista Ana Ávila, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Unicamp, avalia que as ondas de calor passaram a ocorrer com maior frequência e intensidade no continente, que aquece mais rápido. Ela defende medidas de adaptação para proteger a população, principalmente idosos e outros grupos mais vulneráveis.