O Brasil aparece entre os países com maior número de combatentes estrangeiros mortos na guerra da Ucrânia, segundo contagens não oficiais baseadas em anúncios públicos de mortes e desaparecimentos. O levantamento coloca os brasileiros na terceira posição, atrás de Estados Unidos e Colômbia, com mais de 100 mortes registradas.
O Itamaraty confirmou 35 brasileiros mortos e 92 desaparecidos no conflito enquanto lutavam a serviço da Ucrânia. Os dados oficiais não equivalem à estimativa de mais de 100 mortes, mas indicam que o total de brasileiros desaparecidos e mortos mais que dobrou desde dezembro do ano passado.
Um dos primeiros brasileiros a morrer no Leste Europeu foi Douglas Rodrigues Búrigo, de 40 anos. Ele estava em Kharkiv logo nos primeiros meses do conflito. André Luis Hack Bahi, que também foi vítima da guerra em 2022, quando disse aos seus familiares que estava indo realizar o sonho de participar de um conflito armado.
Antônio Hashitani, paranaense de 25 anos, também morreu enquanto atuava como voluntário em um grupo paramilitar na cidade de Bakhmut em 2023. Já Thalita do Valle foi atingida pelas tropas russas dentro de um bunker. Ela era atiradora de elite, modelo, atriz, socorrista, estudante de direito e ativista da causa animal.
Entre os casos recentes está o de Edi Soares de Souza, morto em combates na região de Zaporíjia. Imagens do funeral dele circularam nas redes sociais, em meio à ampliação dos relatos sobre brasileiros alistados nas forças ucranianas.
O português se tornou comum em áreas sob controle militar ucraniano. Uma companhia formada majoritariamente por falantes do idioma e liderada por brasileiros integra esse cenário, enquanto canais oficiais de recrutamento de estrangeiros da Ucrânia divulgam convites em português nas redes sociais.
Ucrânia muda contratos e oferece salário de até R$ 53 mil
O governo ucraniano reformulou contratos para atrair e manter combatentes estrangeiros. Os novos modelos exigem permanência mínima de seis meses e preveem facilidades migratórias, incluindo autorização para permanecer no país por um período após o fim do serviço militar.
A remuneração pode chegar ao equivalente a R$ 53 mil mensais, conforme a função e a proximidade da linha de frente. O ministro da Defesa da Ucrânia afirmou, após a mudança, que o país passaria a ter a infantaria e as tropas de assalto mais bem pagas do mundo.
Veteranos brasileiros contestam a imagem de enriquecimento associada aos salários. Anderson Quadros, que atua na Ucrânia ao lado do brasileiro Giovanni Paese, afirmou: “Eu desconheço um soldado que ficou rico aqui”. Paese vive no país há quatro anos e hoje trabalha com drones, após ter ingressado no esforço de guerra.
Rodrigo Lopes e Naiano Gonçalves, brasileiros que passaram 11 meses em combate e se preparavam para voltar ao Brasil, relataram longos períodos em trincheiras e posições improvisadas sob bombardeios. Gonçalves resumiu a experiência com uma frase que ouviu sobre uma brigada: “joga cem no front e volta dez”.
Além do risco de morte nos combates, familiares enfrentam obstáculos para acessar indenizações, que podem se aproximar de R$ 2 milhões em determinadas situações. A liberação costuma depender da localização do corpo ou de processos judiciais para o reconhecimento formal do óbito, que podem durar anos.
O brasileiro Bruno Gabriel Leal da Silva, de 23 anos, morreu em dezembro de 2025 dentro de uma base militar ucraniana. A Procuradoria Militar da Ucrânia informou que a Polícia Nacional em Kiev investiga o caso para apurar indícios de homicídio culposo por negligência; ninguém havia sido formalmente acusado.
A Rússia classifica estrangeiros que combatem pela Ucrânia como mercenários e sustenta que eles não teriam as proteções destinadas a prisioneiros de guerra pela Convenção de Genebra. Kiev rejeita a interpretação e afirma que integrantes da Legião Internacional assinam contratos oficiais, entram na estrutura militar do país e recebem os mesmos direitos, deveres e pagamentos dos soldados ucranianos.
O Brasil não aderiu à Convenção da ONU contra mercenários e não possui legislação específica sobre a participação de cidadãos em conflitos armados estrangeiros sob essa classificação. O Itamaraty voltou a recomendar que brasileiros evitem qualquer envolvimento com forças armadas de outros países e alertou que a assistência consular em zonas de guerra pode ser severamente limitada.