O Brasil foi o país mais prejudicado pela nova reformulação das tarifas de importação dos Estados Unidos anunciada pelo presidente Donald Trump, segundo análise publicada pelo Financial Times nesta sexta-feira (24). Levantamento da organização independente Global Trade Alert aponta que a tarifa efetiva aplicada aos produtos brasileiros subiu de 11% para 17,7%.
O aumento brasileiro foi o maior entre os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos. Países europeus seguiram caminho oposto: França, Reino Unido, Alemanha e Espanha passaram a enfrentar alíquotas efetivas menores após a mudança na política tarifária americana.
A reformulação ocorreu depois que a Suprema Corte dos Estados Unidos considerou ilegais, no início deste ano, as tarifas amplas anunciadas por Trump em abril de 2025. Para manter a política em vigor, o governo americano substituiu a tarifa global temporária de 10% por taxas específicas para cada país, com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.
George Riddell, diretor da consultoria Goyder, afirmou ao Financial Times que esse desenho dificulta uma derrubada judicial ampla da política tarifária. Se um país conseguir reverter a medida nos tribunais, a decisão tende a valer apenas para esse país, sem efeito automático sobre os demais parceiros comerciais.
Brasil pode enfrentar cobrança de até 37,5%
Mesmo com a reformulação, a tarifa média efetiva cobrada pelos Estados Unidos sobre importados ficou praticamente estável, em 10,8%, de acordo com a Global Trade Alert. Na quinta-feira (23), Washington anunciou uma nova tarifa de 12,5% sobre produtos brasileiros e de outros 59 países, sob a justificativa de que essas nações não combatem de forma eficaz a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
A nova taxa entrou em vigor nesta sexta-feira (24). Como o Brasil já enfrenta uma tarifa adicional de 25%, parte das exportações brasileiras poderá receber cobrança de até 37,5%, embora o governo americano preveja exceções para produtos considerados estratégicos.
O governo brasileiro negocia uma resposta à medida e ampliou o apoio às empresas afetadas por meio do Plano Brasil Soberano. O programa já liberou R$ 18,5 bilhões em para setores atingidos pelas tarifas americanas.
A Europa saiu relativamente beneficiada pela nova política. Bélgica, Espanha e Itália registraram as maiores reduções nas tarifas efetivas, entre 1 e 1,5 ponto percentual, porque parte das exportações europeias entrou em exceções criadas pelos Estados Unidos para produtos como diamantes, cortiça e ferro-gusa. “As tarifas aumentam, principalmente para o Brasil, mas também para a China. Em geral, elas caem para os europeus, ainda que ligeiramente”, disse Johannes Fritz, diretor-executivo da Global Trade Alert, ao Financial Times.
China, Vietnã, Indonésia, Chile e Colômbia também registraram aumentos entre 0,5 e 1 ponto percentual nas tarifas efetivas. A União Europeia mantém preparado um pacote de retaliação sobre cerca de € 93 bilhões, aproximadamente R$ 590 bilhões, em exportações americanas, incluindo automóveis, bourbon e soja, caso novas investigações comerciais dos Estados Unidos resultem em tarifas adicionais contra setores industriais do bloco.