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A surpreendente arrancada da esquerda nos EUA

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A surpreendente arrancada da esquerda nos EUA

Por Antonio Martins, publicado no Outras Palavras

O escritor e crítico cultural Gore Vidal dizia que “há um só partido nos Estados Unidos: o Partido da Propriedade, e ele tem duas alas direitistas – a republicana e a democrata”. Sinal da crise: nesse ambiente político inóspito, a partir do qual Donald Trump e os bilionários das big techs sonham em construir sua distopia, estão surgindo uma crítica renovada ao capitalismo e um esboço de alternativa.

No processo que conduz às eleições nacionais de novembro, a ala à esquerda do Partido Democrata está alcançando vitórias inéditas. Não são apenas triunfos institucionais. Estão associados a um ativismo de base intenso, voltado a temas como saúde, moradia, endividamento, imigração, justiça climática e defesa da Palestina. O melhor: há sinais de que emerge daí, aos poucos, o embrião de um programa, focado em enfrentar a mercantilização da vida e defender os direitos, os investimentos públicos e as lógicas sociais do Comum. Um fato novo, ocorrido na manhã desta quarta-feira (5/8), dará maior repercussão a esta escalada.

Ao vencer as eleições primárias dos democratas no estado de Michigan, o médico sanitarista Abdul El-Sayed, obteve o direito de disputar, em novembro, uma cadeira no Senado. Tem apenas 41 anos, é filho de imigrantes egípcios e foi gestor de equipamentos públicos de Saúde em Chicago. Concorreu a partir de um slogan que denuncia a mercantilização da vida: Michigan não está à venda [“not for sale”]. Dois traços especiais no resultado dão-lhe sentido e sabor especiais. El-Sayed travou uma disputa em condições muito desfavoráveis. Sua adversária, a deputada Haley Stevens, tinha o apoio da governadora Gretchen Whitmer, de todo o establishment democrata e… dos donos do dinheiro. Enquanto a campanha de El-Sayed virou-se com 7,1 milhões de dólares, Stevens esbanjou US$ 64,5 milhões, nove vezes mais. Desse montante, US$ 30 milhões foram oferecidos pela AIPAC, entidade que coordena o influentíssimo lobby sionista nos EUA. Havia sentido em investir tanto na escolha da deputada: como muitos democratas, ela votou com Trump, sempre que este precisou de apoio no Congresso para manter o apoio militar a Israel.

A segunda marca da vitória de El-Sayed é o território em que se deu. Michigan é complexa, plural, disputada. Lá estão Detroit e o rust belt, antigo bastião operário hoje sucateado e tendente ao trumpismo; um movimento negro potente (cujo setor institucionalizado apoia o establishment democrata); universidades de ativismo político intenso. Os analistas que relativizavam, até agora, o avanço da esquerda diziam que ele só seria relevante caso se espraiasse para as primárias de Michigan e Winscosin, no Meio-Oeste – deixando de se restringir a redutos progressistas da Costa Leste. Agora já têm parte da resposta.

O crescimento atual da esquerda norte-americana começa em 10 de junho, mas tem como precedente óbvio a eleição de Zohram Mamdani, em Nova York, em novembro de 2025. Desde que assumiu, prefeito resiste, em meio a sorrisos e aura de criativo, às tentações de domesticação. Persiste no programa de cidade acessível, pra todos. Contrariando os que esperavam uma “normalização” com os democratas do establishment, apoiou, nas primárias para a indicação de candidatos do partido à Câmara, três ativistas: a deputada estadual Claire Valdez, sindicalista e descendente de indígenas norte-americanos; o ex-controlador financeiro da cidade, Brad Lander; e Darializa Chevalier, organizadora dos protestos pró-Palestina na Universidade de Columbia. O trio venceu, desfazendo as expectativas dos que creem que a política tende sempre ao centro. Superou, em dois dos casos, congressistas democratas pró-establishment, com mandatos longevos e grandes estruturas de campanha.

Mas as vitórias dos candiatos-ativistas foram bem além. Em Washington, Janeese Lewis George, advogada e ativista negra de 36 anos, venceu, ainda em junho, as primárias das eleições para a prefeitura do Distrito de Columbia, que abrange o território da capital. Favorável a vasta construção de moradias populares pelo Estado e do congelamento dos aluguéis construiu o resultado em bairros negros e latinos. Isso levou Trump, contrariado, a qualificá-la de “comunista”. No Colorado, Melat Kiros, uma jovem de 29 anos nascida na Etiópia, que nunca havia concorrido a cargo público, venceu a deputada Diana DeGette, que se sentava numa cadeira da Câmara de Representantes havia 30 anos. Melat, formada em direito, abriu mão de uma carreira promissora, num grande escritório de advocacia em Nova York, quando se recusou a apagar um post em que criticava o genocídio praticado por Israel em Gaza.

A próxima grande batalha será travada em Winscosin, em 11/8. Estará em disputa a indicação do Partido Democrata para o governo do Estado, com pleito também marcado para novembro . Francesca Hong, filha de coreanos, mãe solo e bartender em tempo parcial, está desafiando a ala conservadora do partido. Seu programa, que seria visto como herético e inviável eleitoralmente há poucos anos, inclui vasta reivindicação do Comum e da presença do Estado nas relações sociais, começando por creches e transporte público gratuitos. Francesca também defende a legalização da maconha, com os respectivos impostos dirigidos à garantia de acesso gratuito e de alta qualidade ao universo digital. Indigada sobre como custear estes direitos, fala em tributar a riqueza: “Dinheiro não falta. A questão é como usá-lo em favor de muitos”.

No cômputo, geral, estima a agência Reuters, a esquerda apoiou 150 candidatos e candidatas para as primárias norte-americanas deste ano, tendo alcançado até agora 38 vitórias. Nada parecido a isso havia ocorrido antes.

A atual onda de esquerda não surgiu por geração espontânea. Há uma organização política impulsionando-a: os DSA, acrônimo para Socialistas Democráticos da América, Quase todos os candidatos de esquerda agora projetados são ligados organicamente a eles. As duas exceções – o próprio El-Sayed e Bred Lander – não estão filiados, mas orientam-se por ideias muito semelhantes e neles se reconhecem.

Constituídos em 1982, originários por sua vez da fusão de grupos anteriores, os DSA (veja seu website) são herdeiros, em meio a muitos percalços, de diversas correntes da tradição revolucionária do século XX nos EUA – anarquistas, comunistas, aintiimperialistas, libertários nos costumes e outros. Organizam-se de forma militante – em núcleos, que se orientam por políticas construídas coletivamente e atuam de forma programático-setorial. Definem objetivos, estratégias e táticas em congressos. Não são centralistas: constituem-se de militantes mas também de correntes, que conservam autonomia e muitas vezes disputam entre si, de forma nem sempre cordial e construtiva.

Embora atuando em meio a estratégias distintas, os DSA foram capazes de se unir em torno de campanhas comuns – daí, sua força militante, sua vocação ao trabalho mobilizador e pedagógico de base e também a potência que parecem ter para chegar, ao longo do tempo, a construções programáticas coerentes e comuns. No campo do trabalho, Socialistas Democráticos foram decisivos, por exemplo, para a organização sindical dos trabalhadores da Amazon e da Starbucks – batalhas duríssimas, devido à oposição feroz das empresas e também emblemáticas, nas condições de precariedade contemporâneas. Também participaram ativamente de greves que repercutiram em todo o mundo, como a dos roteiristas de Hollywood, em 2023.

Impulsionam outras lutas: as “uniões de inquilinos“, que se organizam prédio a prédio, e boicotam o pagamento de aluguéis abusivos. A exigência de leis municipais de locação que limitem o poder dos proprietários. A reivindicação do Direito desmercantilizado à Saúde (expresso na fórmula Medicare for All, e que poderia levar, no futuro, à criação de algo como o SUS). A batalha por Justiça Climática, que organiza comunidades empobrecidas, vítimas de refinarias e indústrias químicas, e ao mesmo tempo propõe o debate sobre o ecossocialismo. A exigência de anulação das dívidas estudantis.

Com base nestas lutas, o DSA formula, aos poucos, seu esboço de programa — expresso muitas vezes nas falas de seus expoentes institucionais. O senador Bernie Sanders, candidato duas vezes à Presidência, denuncia a captura da riqueza social pela elite financeira e propõe várias formas de resgate. A deputada Alexandra Ocasio lidera a campanha pelo Green New Deal, que combina ecossocialismo com direito ao trabalho digno garantido pelo Estado, ao propor construir uma nova relação com a natureza por meio de mais investimentos públicos (em energia solar e eólica, redes de trens e metrôs, saneamento para todos e despoluição, por exemplo). Zohram Mamdani precisou, ao disputar a prefeitura de Nova York, dar nova concretude a esta trilha teórica. Daí surgiram propostas como a cidade acessível: creches e transporte público gratuitos, aluguéis rebaixados e supermercados públicos.

A tudo isso soma-se algo que tem sentido ao mesmo tempo geopolítico e simbólico. O DSA está profundamente implicado na luta em defesa da Palestina. Envolve-se com ela nas universidades – perseguidas por Trump com polícia e corte de recursos – e nas ruas, onde há jovens condenados a longos anos de prisão por terem protestado contra agentes do ICE, a polícia antiimigrantes. A ênfase nesta causa, parece significar algo: a vergonha pela participação dos EUA no genocídio de Gaza; a ideia de que não é suportável ser cúmplice desta massacre; a noção de que ele é símbolo de uma ordem internacional que precisa ser mudada de alto a baixo.

A politica norte-americana é marcada, em todas as suas vertentes, pelo pragmatismo. A ideia de relações pós-capitalistas que o DSA compõe aos poucos bebe destas construções fragmentárias. Mas não deixa de ter coerência, nem de projetar futuros. Num tempo em que o capitalismo busca mercantilizar todas as instâncias da vida, não é revolucionário propor que direitos como a Saúde, a Educação, a Habitação sejam excluídos do mundo da mercadoria? Ou que sistemas públicos de transporte, de comunicações, de habitação e de urbanização criem uma esfera do Comum igualitária e capaz de asseguram bem-estar para todos? Ou, ainda, que o uso das s energéticas e das novas tecnologias seja orientado pela decisão consciente e planejada das populações – não pela sede de lucro das megaempresas?

É possível discordar da abordagem dos DSAs. Os saudosos das formas das lutas anticapitalistas que marcaram os séculos XIX e XX pensarão, talvez, que é herético reduzir a centralidade do trabalho na luta anticapitalista. Mas é impossível não constatar algo muito inovador. Os socialistas democráticos dos EUA estão sendo capazes de propor, em meio ao vendaval trumpista, um horizonte político novo.

Não se limitam a esperar o possível, nem a desejar o menos pior. Não foram atraídos pela vida institucional e seu conformismo, nem sugados por eles. Projetam um futuro muito distinto do atual. Apresentam-no a suas sociedades. Em busca deste horizonte, onde identificam um pós-capitalismo, mobilizam a consciência e a ação coletivas.

Seu esforço prático e político pode dizer muito a um Ocidente em que a esquerda, institucionalizada e sem elã, parece em muitos casos temer, bem mais do que desejar.

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