Jair Bolsonaro não estava na convenção que oficializou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, mas o PL colocou uma versão artificial do ex-presidente no telão. Um vídeo produzido com inteligência artificial recriou sua imagem e sua voz para transmitir um pronunciamento de apoio ao filho neste sábado (25), em São Paulo.
“Estou preso e calado por uma decisão arbitrária”, declarou o Bolsonaro sintético. Na sequência, a gravação afirmou que “nenhuma prisão” poderia interromper o movimento político comandado pelo ex-presidente e pediu aos apoiadores que recebessem Flávio “de braços abertos” como candidato à Presidência.
Jair Bolsonaro cumpre prisão domiciliar e está proibido de usar telefone ou redes sociais, diretamente ou por intermédio de terceiros. Em julho, Alexandre de Moraes também vetou a divulgação de manifestações político-eleitorais do ex-presidente por outras pessoas até o fim da eleição. É o caso de se perguntar: é legal atribuir ao condenado uma falação ainda que seja artificial?
Vídeo de Jair Bolsonaro feito por Inteligência Artificial é exibido na convenção do PL pic.twitter.com/F7NZnZiJRe
— Sam Pancher (@SamPancher) July 25, 2026
A restrição foi ampliada depois que Flávio leu nas redes uma carta escrita pelo pai com um apelo pela união da direita em torno de sua candidatura. Moraes considerou que o senador havia servido como canal para uma comunicação proibida, suspendeu suas visitas ao pai por 90 dias e determinou a investigação de possível propaganda eleitoral antecipada.
Duas semanas depois, o PL voltou a transmitir essencialmente o mesmo recado, mas substituiu o papel manuscrito por uma réplica digital de Bolsonaro. A peça não apresentou apenas fotografias ou imagens ilustrativas: simulou o ex-presidente falando diretamente ao público e defendendo a candidatura de Flávio, como se estivesse participando da convenção.
O vídeo também pode abrir uma discussão na Justiça Eleitoral. A resolução do TSE para a eleição de 2026 obriga campanhas e partidos a identificarem de maneira explícita qualquer conteúdo sintético produzido por inteligência artificial. A norma proíbe ainda o uso de deepfake para favorecer ou prejudicar candidaturas, mesmo quando há autorização da pessoa cuja imagem ou voz foi recriada.
A eventual irregularidade dependerá de provocação e julgamento da Justiça Eleitoral. Politicamente, porém, a função da peça foi inequívoca: devolver voz eleitoral a Jair Bolsonaro e usar sua imagem para transferir apoio ao filho. Impedido de aparecer, telefonar, publicar ou mandar recados por aliados, o ex-presidente subiu ao palanque como personagem fabricado por computador.