Uma pergunta que poderia ser feita ao estagiário do Datafolha metido a intérprete de pesquisas: por que Caiado aparece razoavelmente bem em simulações de segundo turno, se não para de bater nos filhos de Bolsonaro?
Caiado critica Flávio e Eduardo por terem fomentado as tarifas de Trump contra o Brasil. Disse que Flávio deveria ter chamado os embaixadores para promover o país, e não para atacar as urnas. E definiu Eduardo como o Pateta da família.
Como, apesar dos ataques que poderiam deixá-lo mal com o bolsonarismo, Caiado aparece com 40% de intenções de voto num segundo turno contra Lula? Se colocassem Zema no lugar de Flávio, o mineiro distraído teria os mesmos 40%.
O estagiário pediria que prestassem atenção a detalhes aparentemente subalternos da pesquisa. Caiado, que ataca os Bolsonaros, e Zema, que parece ainda meio perdido sobre o papel a cumprir, teriam só três pontos abaixo da pontuação de Flávio.
É um cenário que já aparecia antes e se reafirmou na pesquisa Quaest de 16 de julho. Flávio já não consegue se diferenciar muito dos outros dois, quando eles são os que enfrentam Lula. Há ainda um detalhe que só parece mais enganar do que esclarecer sobre o primeiro turno.
No primeiro turno, Lula tem 40%, Flávio tem 32%, Caiado vem com 4%, Zema com 3% e Renan Santos (Missão) com os mesmos 3%. Perguntariam ao estagiário: como Caiado e Zema têm índices tão baixos no primeiro turno e conseguem boas performances no segundo?
Porque, diria o amigo do estagiário que estava ao lado só ouvindo, o voto anti-Lula se concentra em Flávio, mesmo que já sem a mesma força da arrancada da pré-campanha. O voto para derrotar Lula não se dispersa no primeiro turno, porque ele, Flávio, tem prioridade na luta da direita.
Os outros são os outros. Mas num segundo turno sem Flávio o esforço para derrotar Lula seria dirigido quase na totalidade a Caiado ou Zema. E também seria absorvido em boa parte por Renan Santos, se ele aparecesse na pesquisa do Datafolha.
Santos já apareceu em levantamentos de outros institutos com pontuação de 33% a 35%. Na Quaest de junho, o candidato do MBL tem 33%, e Lula aparece com os mesmos 45% do Datafolha. Se colocarem Damares Alves ou Zé Trovão, é possível que as diferenças não sejam tão grandes.
O estagiário poderá oferecer várias explicações, com a arrogância do aprendiz esperto, mas esta aqui seria a principal: com o rebaixamento da sua candidatura, pela sequência de crises, Flávio não tem a hegemonia eleitoral absoluta e intransferível do antilulismo.
Caiado pode bater em Lula. Zema pode ser algo gasoso solto no ar e Renan Santos é um desconhecido para a grande maioria. Mas nada disso importa. O antilulismo releva tudo – inclusive ignorâncias sobre o que os candidatos de fato são e propõem fazer – para juntar forças contra Lula.
São forças fragilizadas pelos episódios que enfraqueceram lideranças da direita, e não só do bolsonarismo, mas que continuam dispostas a manter a base criada em torno de Bolsonaro em 2018. O resto ainda está disperso entre o que chamam de eleitor independente ou de centro.
O estagiário destacaria outro dado. A rejeição à candidatura de Flávio chega a 48%. Lula é rejeitado por 46%. Mas Zema tem rejeição de apenas 13%, e Caiado e Santos, de 12%. Significa, na avaliação isolada, a combinação clássica de desconhecimento e indiferença, porque no meio dos cachorros grandes eles seriam quase nada. Mas é com eles que a direita pode ir à luta sem Flávio.
O resumo do resumo é este: o cerne da direita, que ainda se mantém em torno de Flávio, pode ser preservado em torno de Caiado ou de Zema num segundo turno, considerando sempre que é a partir daí que o resto se agrega, como se deu em 2018 e quase se repetiu em 2022.
O estagiário diria: Flávio, Caiado, Zema, Santos ou Michelle podem fazer o que Flávio vem fazendo. Quer dizer que podem vencer Lula? Não. Significa que, pela configuração do antilulismo no momento, todos podem perder como se fossem quase iguais e tivessem as mesmas forças.