Na madrugada de 25 de abril de 1986, poucas horas antes de o mundo conhecer um dos maiores desastres nucleares da história, Serhiy Lobanov e Iryna Stetsenko celebraram o que ficaria marcado como o último casamento realizado em Pripyat, cidade vizinha à usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia. Sem imaginar que o reator número quatro havia explodido a menos de quatro quilômetros de distância, o casal viveu um momento que rapidamente se transformaria em tragédia.
Iryna relembra que era pouco depois da meia-noite quando tentava controlar a ansiedade antes da cerimônia. Após terminar as unhas para o casamento, ela abriu a porta da varanda e percebeu que havia algo incomum no ar, embora ninguém ainda soubesse da dimensão do ocorrido. Mesmo com a sensação crescente de que algo estava errado, a cerimônia foi realizada normalmente, enquanto o desastre nuclear já se desenrolava nas proximidades. As informações são da BBC.
O que deveria ser o início de uma nova vida juntos foi interrompido de forma abrupta no dia seguinte. Com o início da evacuação de Pripyat, Serhiy e Iryna foram obrigados a deixar a cidade às pressas, sem qualquer noção de que aquela saída seria definitiva.
A cena permaneceu gravada na memória de Iryna por décadas. Ela recorda ter fugido ainda vestida de noiva, correndo descalça pelas poças d’água, em meio ao caos provocado pela retirada dos moradores. “Eu estava de vestido de noiva, correndo descalça pelas poças”, relatou.
Naquele momento, as autoridades soviéticas ainda tratavam o acidente com cautela pública e minimizaram inicialmente a gravidade da explosão, apesar da liberação de material radioativo na região. O casal foi deslocado para outra cidade, distante de Pripyat, e viu sua vida mudar completamente por causa da tragédia nuclear.
Quatro décadas depois do acidente de Chernobyl, a história do casal ganhou um novo capítulo. Hoje vivendo em Berlim, Serhiy e Iryna reconstruíram a vida pela segunda vez, após deixarem novamente seu país em razão da guerra na Ucrânia.
Mesmo passados 40 anos, as lembranças daquele casamento e da fuga apressada continuam vivas. Para Iryna, a experiência reforçou ainda mais a união entre os dois. “Acho que realmente tivemos que passar por algumas dificuldades na vida para entender que realmente não podemos viver um sem o outro”, afirmou. Em seguida, completou: “Depois de 40 anos, posso dizer com certeza que somos como linha e agulha. Fazemos tudo juntos.”
A história do último casamento em Chernobyl permanece como um dos relatos mais humanos e marcantes ligados ao desastre que devastou Pripyat e mudou para sempre a vida de milhares de pessoas.



