A possível classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelo governo dos Estados Unidos vem sendo acompanhada por uma forte repercussão na imprensa americana. O tema ganhou espaço em veículos de grande alcance e passou a integrar discussões estratégicas entre autoridades dos dois países.
A proposta já chegou ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante encontros com representantes norte-americanos. Mesmo diante da resistência do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que enxerga riscos de ingerência externa, a sinalização é de que a medida deve avançar.
Classificação como terrorismo amplia poder de sanção
O Departamento de Estado dos Estados Unidos sustenta que a medida tem como objetivo combater o financiamento de organizações criminosas. Na prática, no entanto, o enquadramento como grupo terrorista amplia significativamente os mecanismos de atuação: permite bloqueio de ativos, restrições financeiras em escala global e abre caminho para operações mais incisivas fora do território americano.
Esse movimento é respaldado por reportagens recentes de veículos como The New York Times e The Wall Street Journal, que vêm destacando o crescimento e a sofisticação das facções brasileiras no cenário internacional.
PCC é descrito como estrutura empresarial global
Em publicação recente, o Wall Street Journal classificou o PCC como uma organização com estrutura comparável à de uma corporação multinacional. Segundo o jornal, a facção deixou de atuar apenas no sistema prisional paulista e passou a operar em diversos continentes, consolidando uma rede internacional de tráfico de drogas.
Um dos principais pilares dessa expansão é o controle logístico do escoamento de cocaína. O Porto de Santos, maior da América Latina, aparece como ponto estratégico para envio da droga à Europa. O entorpecente é ocultado em contêineres de cargas lícitas, como soja, café e suco de laranja, muitas vezes sem conhecimento dos exportadores.
Técnicas como o “rip-on/rip-off” e o uso de compartimentos escondidos em sistemas de refrigeração ou materiais tratados quimicamente dificultam a fiscalização.
Rotas diversificadas e alcance global
Além de Santos, a facção utiliza outros portos brasileiros, especialmente no Nordeste e em Paranaguá, ampliando as rotas internacionais. Há também trajetos que passam pela América Central e pelo México antes de chegar aos Estados Unidos.
Apesar disso, a própria imprensa americana reconhece que a maior parte da cocaína produzida na América do Sul especialmente na Colômbia, Bolívia e Peru tem como destino final mercados na Europa, Ásia e Austrália.
Parcerias internacionais e lucros milionários
O New York Times detalha que o tráfico opera em escala global e movimenta grandes volumes financeiros, enfrentando dificuldades de contenção mesmo com uso de tecnologia avançada e apoio militar.
A facção brasileira mantém parceria com a máfia italiana ’Ndrangheta, atuando como fornecedora de grande escala enquanto os europeus cuidam da distribuição. A diferença de preços impulsiona o negócio: um quilo de cocaína adquirido por até US$ 3 mil na América do Sul pode ser vendido por cerca de € 30 mil na Europa.
Estrutura interna e profissionalização
Internamente, o PCC funciona por meio de setores conhecidos como “sintonias”, responsáveis por áreas como expansão territorial, coordenação internacional e gestão financeira. A organização também passou a incorporar profissionais especializados, incluindo mergulhadores para fixação de drogas em navios e hackers para manipulação de sistemas portuários.
Esse nível de sofisticação reforça a imagem de uma organização altamente estruturada e adaptável, como destacado pela mídia internacional.
Pressão dos EUA e ações militares na região
Paralelamente, o governo de Donald Trump intensificou operações militares relacionadas ao combate ao tráfico. Segundo o New York Times, embarcações suspeitas foram alvo de ataques na costa da América do Sul, resultando em pelo menos 177 mortes desde o ano passado.
Os Estados Unidos também vêm pressionando países da região a adotarem medidas mais rígidas, sob ameaça de intervenção direta.
Caso no Equador levanta alerta
Situação semelhante já foi registrada no Equador, onde ações conjuntas com os Estados Unidos ocorreram após grupos locais serem classificados como terroristas. Em uma dessas operações, um local apontado como base do narcotráfico foi bombardeado. Posteriormente, verificou-se que se tratava de uma fazenda destinada à produção de laticínios.
O episódio acendeu alertas sobre possíveis erros em operações desse tipo e reforçou o debate sobre os impactos de uma eventual classificação de facções brasileiras como organizações terroristas.



