Por Leonardo Sakamoto no UOL
Currículo não é papel ou PDF sem importância. É a assinatura de quem você diz que é. Um currículo não é uma lista burocrática de empregos e diplomas, mas o retrato que alguém pinta de si mesmo para pedir que você confie nele. Falsificá-lo não é um deslize de digitação. É falsificar a própria base sobre a qual a confiança seria construída. “Ah, japonês, quem nunca errou um dado no currículo?” Entendo, apesar de discordar. Mas aqui a diferença é que a pessoa não está pedindo para comandar a República e, por conseguinte, as Forças Armadas.
A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) divulgava que ele tinha uma pós-graduação em Ciências Políticas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apesar de não existir registros dele na instituição. Diante da repercussão negativa, o senador veio a público defender que tinha uma boa formação. A questão é outra, contudo.
Mentir no currículo já é feio para qualquer profissional. Para um candidato à Presidência, o problema dispara. O cargo cobra o mais alto padrão de responsabilidade pública, e inventar qualificação mexe direto na capacidade de governar.
Seguindo a cartilha do pai, Flávio Bolsonaro tentou terceirizar a culpa para a equipe. Erro da assessoria, possivelmente veio da Wikipédia, coisas do gênero. Só que o nome estampado no currículo era o dele. Quem devia conferir era ele.
E olha o detalhe que ninguém deveria deixar passar: o “erro” foi justamente com a UFRJ, uma das universidades mais respeitadas do país. Não foi engano para menos, foi para cima. É uma versão mais humilde do sujeito que enfeita o currículo dizendo que estudou em Harvard.
Eleição é voto de confiança. Se o candidato mente sobre fato verificável (onde estudou, onde trabalhou), o eleitor perde o chão para acreditar em qualquer promessa que ele fizer depois. Se mente sobre o passado, por que confiar no que promete para o futuro?
Presidente lida com decisão ética difícil todo santo dia. Inflar currículo para ganhar voto mostra a ordem de prioridades, ou seja, ambição pessoal na frente da verdade.
Currículo existe para provar que o candidato tem competência para o cargo. Se a credencial é forjada, a pergunta que fica é incômoda: será que a competência também é?
Tem ainda o risco mais frio: presidente com mentira mal resolvida vira alvo fácil. Quem descobrir a fraude antes do público (adversário, grupo de interesse, governo estrangeiro) ganha munição para chantagear ou puxar o cordão do líder.
E cada vez que um político mente e não paga nenhum preço por isso, a régua desce um pouco para todo mundo. Mentiras no currículo já acometeram gente poderosa da esquerda, da direita, do centro. Mas isso não deveria normalizá-la, pelo contrário.
Normalizar a desonestidade corrói a confiança nas instituições e alimenta o cinismo de quem já desistiu de acreditar em política. E ainda ensina ao próximo candidato que mentir compensa, desde que a assessoria segure a barra depois.