O governo Donald Trump escalou dois dos principais nomes de sua diplomacia ideológica para uma missão ao Brasil que pretende levantar dúvidas sobre a imparcialidade e a integridade do sistema eleitoral brasileiro antes da eleição presidencial de 4 de outubro. A informação foi revelada pelo Washington Post.
A delegação será formada por Riley M. Barnes, secretário-assistente de Estado para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e Samuel Samson, secretário-adjunto assistente do Departamento de Estado. Eles trabalharão para favorecer Flávio Bolsonaro.
Embora ocupem cargos ligados à “promoção da democracia e dos direitos humanos”, ambos se tornaram conhecidos por atuar justamente em frentes políticas alinhadas à agenda do trumpismo, aproximando-se de movimentos da extrema direita em diversos países e contestando instituições democráticas sob o discurso da defesa da liberdade de expressão e dos “valores ocidentais”.
Samuel Samson, o “cruzado” de Marco Rubio
Aos 27 anos, Samuel Samson é um dos rostos mais visíveis da nova política externa de Donald Trump.
Formado pela Universidade do Texas, Samson começou sua trajetória como assessor do senador republicano Ted Cruz e depois tornou-se dirigente da American Moment, organização criada para formar uma nova geração de quadros conservadores para ocupar cargos no governo americano. O grupo tem forte ligação com o vice-presidente JD Vance.
Desde que assumiu funções no Departamento de Estado, Samson passou a percorrer a Europa promovendo uma ruptura com décadas da diplomacia americana.
Em vez de priorizar relações com governos tradicionais, passou a se reunir sistematicamente com lideranças da extrema direita europeia.
Entre seus encontros estavam reuniões com dirigentes da Alternativa para a Alemanha (AfD) — partido classificado pelos serviços de inteligência alemães como extremista —, além de convescotes reservados com Nigel Farage, no Reino Unido, e manifestações públicas em defesa de Marine Le Pen, na França.
Samson também participou de conversas nas quais foram discutidas teorias conspiratórias difundidas pela extrema direita europeia, como a falsa narrativa da chamada “grande substituição”, que afirma sem evidências que governos europeus estariam promovendo a substituição da população branca por imigrantes.
Em textos publicados pelo próprio Departamento de Estado, Samson afirma que a Europa teria se transformado em um ambiente de “censura digital”, excesso de imigração, restrições à liberdade religiosa e abandono dos valores tradicionais.
Durante boa parte de 2025, Samson foi o diplomata mais visível do governo Trump nas críticas aos líderes europeus. Essa atuação passou a ganhar uma nova dimensão em novembro, quando o Senado confirmou Sarah Rogers para comandar a diplomacia pública do Departamento de Estado, um cargo de hierarquia superior.
Filho de mãe filipina e pai americano, Samson afirma ter uma forte formação religiosa desde a infância. Em 2013, como presidente estudantil de sua escola católica em Houston, declarou defender “uma fé pessoal e ativa em Deus, profundo respeito pelos valores intelectuais e uma consciência social que impulsiona à ação”.
Em sua última grande viagem pela Europa, realizada em dezembro, ele passou por Áustria, República Tcheca, Hungria e Eslováquia. Foi justamente na Hungria que fez seu discurso mais duro contra a ordem política europeia.
Falando no Instituto Húngaro de Assuntos Internacionais — um centro de estudos criado pelo governo húngaro e cujos pesquisadores, segundo declarações feitas em 2023, trabalham diretamente para o primeiro-ministro Viktor Orbán — Samson afirmou:
“Claramente, esta não é uma Europa da liberdade de expressão e do autogoverno.”
Segundo ele, o recém-criado Escritório de Direitos Naturais adotaria “ações direcionadas para resistir tanto aos autoritários tradicionais quanto aos ideólogos modernos que buscam enfraquecer esses bens fundamentais da sociedade”.
Quatro meses depois, porém, essa estratégia já não parecia produzir os resultados esperados pela administração Trump.
Dias antes das eleições gerais na Hungria, o vice-presidente JD Vance viajou a Budapeste na tentativa de fortalecer a campanha de reeleição de Viktor Orbán. Vance descreveu o líder húngaro como “um estadista” e um dos poucos dirigentes europeus dispostos a “defender os valores da civilização ocidental”.
Orbán sofreu uma derrota expressiva nas urnas, encerrando um ciclo de 16 anos consecutivos no poder.
Riley Barnes: direitos humanos sob a ótica da extrema-direita
Chefe do Bureau de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado, Riley Barnes também representa a mudança promovida pelo governo Trump na política externa americana.
Embora seu cargo seja tradicionalmente associado à defesa universal dos direitos humanos, Barnes tem priorizado pautas caras ao conservadorismo religioso e ao nacionalismo defendido pela atual administração.
Em junho deste ano, Barnes esteve na Coreia do Sul, onde, além de reuniões oficiais com autoridades, encontrou representantes do pastor conservador Son Hyun-bo, conhecido por liderar manifestações contra o impeachment do ex-presidente Yoon Suk Yeol.
O encontro provocou desconforto diplomático porque o líder religioso está diretamente envolvido em disputas políticas internas sul-coreanas.
Barnes também foi nomeado por Marco Rubio como enviado especial dos Estados Unidos para questões relacionadas ao Tibete, cargo utilizado por Washington para pressionar Pequim em temas de direitos humanos. A nomeação foi imediatamente condenada pelo governo chinês como uma interferência em assuntos internos.
Nos últimos meses, Barnes passou a defender uma política externa que relaciona direitos humanos, liberdade religiosa e relações comerciais, utilizando esses temas como instrumentos de pressão diplomática sobre governos estrangeiros.
A escolha de Barnes e Samson para a missão brasileira sinaliza que a Casa Branca pretende tratar as eleições de outubro não apenas como um tema diplomático, mas como parte de sua estratégia internacional de influir nas eleições e favorecer abertamente aliados.
O Tribunal Superior Eleitoral afirmou reiteradamente que não há evidências de fraude nas urnas eletrônicas utilizadas no Brasil.