A Polícia Federal afirma que Carlos Lopes, presidente da Conafer (Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais), tentou chantagear o deputado federal Eros Biondini (PL-MG) ao ameaçar divulgar pagamentos feitos pela entidade a Chiara Biondini, filha do congressista e deputada estadual em Minas Gerais pelo PL.
Investigadores apontam que Carlos articulou a ameaça no fim de 2025, depois de se sentir traído pelo apoio de Biondini à CPI mista do INSS e por um pedido do deputado para investigar a execução de uma emenda de R$ 5 milhões destinada ao ITT (Instituto Terra e Trabalho), entidade ligada à Conafer.
A suposta chantagem consta no relatório que concluiu o primeiro inquérito da Operação Sem Desconto, investigação sobre descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. O documento reúne 48 indiciamentos relacionados ao caso da Conafer; Eros e Chiara não estão na lista, enquanto Carlos Lopes e Vinícius Ramos, presidente do ITT, foram indiciados.
Segundo a PF, a Conafer contratou Chiara em 2021, quando ela tinha 19 anos, e pagou ao menos seis parcelas de R$ 10 mil. Em diálogo obtido pelos investigadores, Vinícius disse a Carlos que Chiara recebeu “sem fazer nada”; a corporação afirmou que ela recebeu “salários fictícios”.
Relatório aponta uso de comprovantes como pressão política
Os presidentes da Conafer e do ITT teriam pedido ao deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) que repassasse a Biondini a insatisfação e a ameaça de expor os pagamentos. A PF disse que “Carlos e Vinícius utilizaram os comprovantes dos pagamentos feitos pela Conafer a Chiara como instrumento de chantagem política contra o deputado Eros Biondini”.
Em outro diálogo, Carlos orientou Vinícius a não divulgar os pagamentos “para não cair para cima da Conafer pagamento de propina”. Para os investigadores, a fala indicou que o presidente da entidade, classificado no relatório como “líder do esquema”, reconhecia risco de a movimentação atrair acusação de corrupção contra a Conafer.
Vinícius também teria dito que Eros prometeu obter notas do TCU (Tribunal de Contas da União) e do Ministério do Trabalho favoráveis à Conafer. A PF afirma ainda que o caso demonstra que o ITT “é umbilicalmente ligado” à confederação.
Biondini e Chiara disseram, em nota conjunta, que colaboraram com a investigação e que o relatório “não identificou qualquer ato irregular e muito menos atitude ilícita dos dois congressistas”. Em depoimentos, eles afirmaram que a contratação ocorreu após processo seletivo; Chiara relatou que pedia tarefas e recebia orientação para aguardar, o que lhe teria gerado “forte incômodo e insatisfação”.
A Conafer afirmou que respeita o trabalho da PF, mas disse que o indiciamento é uma manifestação da fase investigativa e não representa denúncia do Ministério Público, julgamento ou condenação. Euclydes Pettersen foi indiciado por suspeita de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa; ele negou “qualquer participação nos fatos apurados” e afirmou que a defesa vai confrontar a versão da investigação.