Poucas empresas brasileiras sofreram uma destruição de reputação comparável à da Odebrecht. Em 2016, a companhia admitiu, em acordo firmado nos Estados Unidos, o pagamento de aproximadamente US$ 788 milhões em propinas a agentes públicos, representantes e partidos políticos em diferentes países. O escândalo atingiu executivos, contratos e a capacidade de obtenção de e transformou uma das maiores multinacionais brasileiras em símbolo dos desvios revelados pela Operação Lava Jato.
Mas a história empresarial que veio depois não foi simplesmente a de uma companhia que desapareceu. Foi a de uma organização que adotou uma sequência de decisões financeiras, societárias, jurídicas e comerciais para continuar operando. Algumas delas foram tomadas pela própria empresa; outras decorreram de decisões do Judiciário. E nenhuma delas apaga as irregularidades que a própria Odebrecht reconheceu no passado.
1. Admitir a crise e negociar
A primeira decisão foi parar de tratar o problema apenas como uma crise de imagem. Os acordos celebrados a partir de 2016 significaram o reconhecimento de práticas ilícitas e abriram uma fase de negociações com autoridades no Brasil e no exterior. A dimensão do caso tornou impossível uma simples estratégia de relações públicas: era necessário reorganizar financeiramente e institucionalmente o grupo.
2. Colocar o grupo em recuperação judicial
Em 17 de junho de 2019, a antiga Odebrecht S.A. e outras empresas do grupo pediram recuperação judicial. O processo envolveu dezenas de bilhões de reais em obrigações e se tornou um dos maiores casos de reestruturação empresarial já registrados no país. O plano foi aprovado pelos credores em abril de 2020 e homologado pela Justiça em julho daquele ano.
A escolha foi decisiva porque permitiu reorganizar dívidas, ativos e pagamentos sem que a holding simplesmente fosse desmontada por execuções individuais de credores. É importante, porém, fazer uma distinção: não há base segura para afirmar que todo o processo do Grupo Novonor tenha sido definitivamente encerrado em 2026. A administradora judicial ainda identifica a recuperação como em processamento, e relatórios de acompanhamento continuaram sendo divulgados neste ano.
3. Mudar governança, controles e o nome
Outra decisão foi tentar separar a empresa que surgiria da crise daquela associada ao auge da Lava Jato. A holding Odebrecht passou a se chamar Novonor, enquanto a construtora adotou durante anos a marca OEC. O grupo também passou a destacar publicamente estruturas de integridade, conformidade e novos mecanismos internos de controle. Atualmente, a própria Novonor afirma manter um sistema de conformidade inspirado em práticas internacionais.
A troca de identidade, porém, nunca poderia apagar a história da organização e juridicamente não apagou. Mudança de marca, reorganização societária ou novos mecanismos de compliance não eliminam automaticamente responsabilidades constituídas anteriormente.
4. As decisões do STF mudaram parte do cenário jurídico
O quarto movimento não partiu da empresa, mas do Judiciário. Em setembro de 2023, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, declarou imprestáveis provas obtidas a partir dos sistemas Drousys e My Web Day B, utilizados pela Odebrecht e entregues no contexto dos acordos da Lava Jato. A determinação alcançou processos em diferentes esferas.
Em fevereiro de 2024, Toffoli também suspendeu o pagamento de multas de R$ 8,5 bilhões relacionadas ao acordo de leniência da antiga Odebrecht com o Ministério Público Federal e autorizou a Novonor a buscar a reavaliação dos termos do acordo perante PGR, CGU e AGU.
Essas decisões produziram efeitos jurídicos relevantes, mas não significam que os fatos históricos reconhecidos pela própria companhia simplesmente deixaram de existir. Uma coisa é a validade de determinada prova ou procedimento judicial; outra é o registro histórico das admissões feitas pela empresa em acordos celebrados com autoridades brasileiras e estrangeiras.
5. Voltar a ser Odebrecht
Talvez a decisão mais simbólica tenha ocorrido em maio de 2025. Depois de anos usando prioritariamente a sigla OEC, a construtora voltou a apresentar ao mercado o nome Odebrecht Engenharia & Construção. Segundo a companhia, tratou-se de uma atualização da marca e da identidade visual.
A volta do sobrenome ocorreu em um momento muito diferente daquele vivido no auge da crise. Dados divulgados pela própria empresa mostram que a construtora registrou receita bruta de R$ 5,2 bilhões em 2024, alta de 48% sobre o ano anterior, desempenho que a colocou na liderança do Ranking da Engenharia Brasileira de 2025. Em 2025, a empresa também voltou a anunciar contratos bilionários: somente dois contratos ligados ao Complexo de Energias Boaventura, no Rio de Janeiro, somam R$ 9,6 bilhões, segundo a companhia.
A Odebrecht, portanto, não desapareceu. Mas também seria simplista dizer que apenas “venceu o passado”. A retomada mistura recuperação judicial, negociação com credores, mudança de governança, decisões judiciais favoráveis em pontos importantes e uma nova expansão comercial. Paralelamente, permanece a memória de um dos maiores escândalos empresariais e políticos já investigados no país.
Essa talvez seja a principal lição empresarial do caso. Trocar o nome não bastou. Para voltar a disputar grandes contratos, foi necessário reorganizar dívida, estrutura, governança e operação e, anos depois, a própria companhia decidiu que já não precisava esconder o sobrenome que havia tentado deixar para trás.
O mercado pode até apostar no futuro de uma empresa. Isso não significa que precise esquecer o passado.




