Alguém poderia dizer, até alguns anos atrás, encarando Michel Temer num encontro casual na calçada do escritório de Daniel Vorcaro em Brasília: a História ser-lhe-á implacável, por todas as maldades que você cometeu contra a democracia.
Hoje, seria difícil dizer qualquer coisa com alguma contundência. Mas Temer está aí de novo. A reaparição, que ganhou até manchete do Estadão ao apresentar uma fórmula para a pacificação nacional, seria um deboche com a História, se a História ainda existisse com as feições que teve até o século 20.
O golpista de 2016, que abriu caminho para a articulação da velha direita com o novo fascismo, que levou ao golpe contra Dilma e ao encarceramento de Lula, retorna ao palco por enxergar vazios e ter uma certeza. Ninguém mais será julgado pela História.
A História como a percebíamos até décadas atrás é artigo fora de catálogo. Não temos História, temos muito pouco de memória recente, e o dia de amanhã antes de acontecer já será passado. Até a semana que vem, diria aquele robô de inteligência artificial metido a Heráclito, já é coisa antiga no Brasil.
Temer se apresenta como pacificador, depois de tudo que fez contra a normalidade e a paz na política, por ter a convicção de que os julgamentos da História são supérfluos hoje, principalmente em Brasília.
Tudo o que o Brasil deseja é esquecer, para não ter o trabalho de reordenar o sentido de coisas passadas e orientar o futuro. Nesse contexto da desmemória, Michel Temer é o que existe de pior no acervo de figuras sobreviventes do passado brasileiro.
Só o Estadão, que o expôs em manchete como homem capaz de palpitar sobre a construção de pontes alternativas ao lulismo e ao bolsonarismo, tem a coragem de apresentá-lo como alguém relevante. Porque o jornal não corre riscos e porque ninguém mais presta atenção no que Temer fez.
Temer nega irregularidades e detalha consultoria prestada ao Banco Master
Ex-presidente enviou aos candidatos ao Planalto o documento ‘Estrada para o futuro’ com sugestões para o novo governo e propôs um pacto a ser firmado nos 10 primeiros dias da próxima gestão… pic.twitter.com/4tOnltyUhY
— Estadão 🗞️ (@Estadao) July 9, 2026
História, não só para as novas gerações, não é mais nem mesmo uma matéria obrigatória na formação elementar de quem frequenta qualquer escola. História é um conjunto gasoso de fatos que parecem não ter relação um com o outro.
Assim, Temer pode até ser visto hoje como alguém ao lado de Aécio, Eduardo Cunha, Bolsonaro, Sergio Moro. Mas sem que isso tenha qualquer utilidade como significado histórico.
Temer ressurge como se fosse uma entidade nacional, que estava mumificada em algum lugar e de repente ganha fala de novo e se apresenta como um irmão atrevido de uma Alexa da política.
O golpista fala como se não tivesse passado porque ninguém mais se lembra de como articulou a traição que derrubou Dilma. Sua fórmula para acabar com o lulismo e o bolsonarismo traz de volta a conversa do semipresidencialismo e pode ressuscitar outros mortos políticos.
O semipresidencialismo entregaria o comando do Brasil a um Congresso de direita e extrema direita. Eis o golpista antevendo o que não precisa de formalidades e novos arranjos constitucionais para acontecer, dependendo do resultado da eleição para Câmara e Senado.
O ressuscitado talvez não tenha nem papel de figurante no filme de Bolsonaro financiado por Daniel Vorcaro, para quem ele prestou serviços de consultor. Mas ainda ganha manchete ameaçando pular da ponte.
Temer encontrar-se-á com a sua turma andando sempre em direção ao passado. Um recuo contínuo levá-lo-ia de novo à ponte de 64, que o inspirou em 2016.