Há presos e presos. Jair Bolsonaro, por exemplo, condenado por tentar destruir a democracia brasileira, passa seus dias a comer pão com leite condensado, a choramingar pela triste condição atual, a ampliar os efeitos de seus males de saúde e a dar conselhos políticos estapafúrdios ao filho candidato. Está em casa, imóvel bastante confortável, como se sabe, e ainda desfruta da companhia da bela e abnegada esposa Michelle, que vez ou outra esboça voos autônomos, para seu desespero.
Lula, condenado sem provas numa armação política hoje totalmente desmascarada, não fez dos 580 dias que passou num cubículo da Polícia Federal em Curitiba um hiato de vitimização. Coragem e persistência foram suas marcas, mediante um otimismo proativo que o torna uma figura única na História do Brasil. Entre outras atividades que o livraram da depressão comum aos apenados, o presidente estudou a vida de Antonio Conselheiro, o líder carismático protagonista da Guerra de Canudos que a literatura consagrada pintou como um messiânico lunático. A despeito de inegáveis qualidades descritivas do conflito civil, resultante de um grandioso esforço de reportagem, “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, pespega essa mentira histórica.
O Brasil ganha agora uma obra dotada de nova perspectiva sobre Antonio Conselheiro, fruto de investigação profunda do jornalista Alexandre Sammogini. “Antonio, O Peregrino do Amor”, editado pela Scortecci, será lançado em São Paulo no dia 12 de setembro, na Bienal do Livro. O prefácio é da ministra da Cultura, Margareth Menezes. A fonte de inspiração do autor é o guia espiritual Silo – Sammogini é um dos “mensageiros de Silo”, coletividade humanista de intensa atividade social nascida aos pés do Aconcágua em 1969, hoje com irradiação mundial.
“O livro se baseia em pesquisas que fiz para contar a saga do Conselheiro antes de Canudos. É uma história pouco conhecida – o que as pessoas conhecem é a Guerra da Canudos. É uma releitura da vida do Conselheiro passada numa região entre Bahia e Sergipe, tendo ele nascido no Ceará e vivido até o início da fase adulta na região de Quixeramobim”, relatou Sammogini à coluna.
Após desilusões e fracassos, Antonio Vicente Mendes Maciel tornara-se um peregrino. Ele próprio dizia: “eu sou Antonio, o Peregrino”. Nessa condição, chega à região onde hoje está Tobias Barreto, em Sergipe, e depara com uma população em miséria absoluta, escravizada. Era o final Império, época pré-Abolição. O peregrino toma como missão construir cemitérios – muitas vezes, as pessoas morriam e não eram enterradas -, tanques de água e capelas. Organiza a população local em mutirões para reformar igrejas.
“O primeiro lugar em que ele se estabelece se chama Rainha dos Anjos, onde estamos fazendo um movimento de preservação de uma das primeiras capelas que ele construiu, se não a primeira”, conta Sammogini.
Quem leu “Os Sertões” não sabe que, antes de se tornar conhecido como Antonio Conselheiro, nosso personagem já se tornara uma pessoa idolatrada. As pessoas pediam para que ele lhes batizasse os filhos. Com suas orações e organizando o povo, ele se torna de fato o Conselheiro. “É aí que ele começa a formar seus seguidores. Ele era um beato, não era um padre, mas os padres o respeitavam porque ele reformava igrejas, organizava o povo para reformá-las”, diz o autor.
O movimento liderado por Antonio foi crescendo, o número de seus seguidores aumentou exponencialmente, o que incomodou os latifundiários, os donos da terra na época. Inicia-se, de modo orquestrado pela elite agrária, uma campanha de difamação do Conselheiro, calcada em mentiras forjadas que não deviam nada às fake news de hoje. “Espalharam que ele tinha matado a própria mãe. O Conselheiro foi preso, foi levado primeiro a Salvador, depois para o Ceará, então descobriram que a mãe dele tinha morrido quando ele tinha 4 ou 5 anos de idade”, destaca Sammogini.
De volta a Itapicuru e Campos, antiga denominação de Tobias Barreto, Antonio Conselheiro viu-se perseguido ainda mais intensamente. Sofre agressões físicas e prisões sucessivas por motivações falsas. Decide, então, sair da região e instalar-se em Canudos, a mais de 200 quilômetros dali. O povo vai atrás dele.
Eis o relato de Sammogini: “Canudos, na verdade, foi uma experiência muito curta, só durou quatro ou cinco anos. Mas foi uma experiência maravilhosa, uma comunidade em que não se precisava de dinheiro, não tinha roubo, não tinha prostituição. Só que no meio do caminho ocorreu a proclamação da República, e os primeiros presidentes começam a mandar os fiscais da Receita para cobrar impostos. O povo fica revoltado. Perguntado, o Conselheiro afirma que o povo não deveria pagar impostos para a República. Ele acaba ficando contra a República e esse é o principal motivo da sua perseguição a partir dali. Depois vem a guerra, quando aniquilam Canudos. A questão dos impostos aconteceu na cidade hoje denominada Nova Soure”.
Alexandre Sammogini começou suas pesquisas em 2020, quando saiu de São Paulo e foi morar em Sergipe. Conversou com descendentes do Conselheiro e de pessoas que conviveram com o beato. O sogro do autor, Seu Zeca Marinho, hoje com 101 anos, foi um dos que lhe contaram histórias fascinantes sobre Antonio Conselheiro.
“Em todo o nordeste havia a crença de que os rios eram de leite e os morros eram de cuscuz – uma narração mítica, mas de fato eles acabaram com a fome num período de muita miséria. Foi, de certo ponto de vista, uma insurgência contra a República, mas no fundo eles nem estavam contra a República – estavam querendo só levar a vida deles em comunidade. E o Exército veio e os massacrou”, indigna-se o autor de “Antonio, O Peregrino do Amor”.
De todo modo, a Guerra de Canudos, especificamente, não é o foco do livro, mas a vida de Antonio Conselheiro. Sobre “Os Sertões”, a visão de Sammogini é a mesma hoje consagrada pelos historiadores mais sérios: o Conselheiro jamais foi um lunático que se aproveitou do fanatismo do povo. Era, isto sim, uma liderança lúcida, e que deixou muitos manuscritos, os quais recentemente foram reproduzidos numa obra valorosa do professor Pedro Lima Vasconcelos, da Universidade Federal de Alagoas, o mesmo cujas vídeo-aulas entretiveram Lula na sela da Polícia Federal em Curitiba.
“Eu considero o Lula uma pessoa que tem essa mística do nordestino, do sertão, que vem dessa linhagem. Ele se inspira no Padre Ibiapina, em Antonio Conselheiro e no Padre Cícero, a grande referência da religiosidade popular. O Lula é um cristão católico, mas carrega essa mística popular que vem desses personagens da nossa História, uma parte da História muito mal contada e pouco preservada”, conclui Alexandre Sammogini.