O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) pediu investigação sobre as circunstâncias que levaram o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a aparecer no sistema da Justiça Eleitoral como filiado ao partido Missão. Segundo as informações apresentadas sobre a iniciativa, o parlamentar pretende que sejam preservados registros digitais e confrontadas as diferentes versões apresentadas pelos envolvidos no episódio.
Entre as diligências mencionadas estão a obtenção de dados que possam ajudar a identificar quem realizou os procedimentos relacionados à filiação e a preservação de informações mantidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pelo Senado e por eventuais provedores envolvidos. Lindbergh também defende que documentos e registros eletrônicos apontados pelas partes sejam disponibilizados às autoridades responsáveis pela investigação.
A controvérsia ganhou uma nova dimensão porque Flávio Bolsonaro e dirigentes do Missão apresentaram versões diferentes sobre a sequência dos acontecimentos. O senador sustenta que foi vítima de uma fraude e afirmou publicamente que adversários estariam tentando prejudicar sua candidatura. O Missão, por outro lado, declarou que também foi vítima de uma tentativa fraudulenta de filiação e afirmou ter identificado movimentações relacionadas ao cadastro antes de o caso ganhar repercussão nacional.
TSE descarta ataque hacker e determina investigação
O Tribunal Superior Eleitoral informou que não identificou invasão hacker ao sistema da Justiça Eleitoral. Segundo a Corte, o episódio teria ocorrido mediante uso indevido da ferramenta por alguém que dispunha de credenciais válidas relacionadas à legenda para efetuar filiações. O esclarecimento é relevante porque diferencia uma eventual fraude praticada por usuário autorizado de uma invasão externa da infraestrutura tecnológica eleitoral.
O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, posteriormente determinou o restabelecimento da filiação de Flávio Bolsonaro ao PL, a retirada do vínculo questionado com o Missão e a investigação das circunstâncias do episódio. A Corte também encaminhou o caso para providências na esfera eleitoral e policial. Portanto, a existência de uma apuração está confirmada, mas a autoria e as circunstâncias da inserção ainda dependem do trabalho investigativo.
Registros digitais podem esclarecer autoria
Um dos pontos centrais da apuração será a reconstrução do caminho digital da filiação. Dados como logs de acesso, endereços IP, horários, credenciais utilizadas, confirmações por e-mail e registros dos sistemas envolvidos podem auxiliar as autoridades a determinar quem iniciou e concluiu as operações.
O Missão declarou que o gabinete de Flávio teria sido informado sobre movimentações relacionadas à filiação desde 2 de agosto e afirmou que mensagens eletrônicas teriam sido abertas. A campanha do senador questionou essa narrativa e negou participação na alteração partidária. Essas afirmações ainda precisam ser examinadas à luz dos registros técnicos que forem formalmente incorporados à investigação.
Renan Santos, candidato do Missão à Presidência, também afirmou publicamente nesta quinta-feira (13) que propôs uma acareação com Flávio Bolsonaro para confrontar as versões e os registros tecnológicos relacionados ao episódio. A manifestação pública de Renan, contudo, não equivale por si só a uma acareação formal determinada pela Polícia Federal, que dependeria da condução do procedimento investigativo.
Hipóteses precisam ser separadas dos fatos comprovados
Eventuais hipóteses de participação de terceiros, atuação deliberada de integrantes de alguma organização ou simulação do episódio não podem, neste momento, ser apresentadas como fatos comprovados. Caberá às autoridades identificar quem utilizou as credenciais, de onde partiram os acessos e se houve participação consciente de outras pessoas.
Da mesma forma, referências a possíveis crimes, como inserção de informação falsa ou outras infrações eleitorais e penais, representam possibilidades jurídicas que somente poderão ser avaliadas depois da identificação da conduta e de seu eventual autor. Até agora, não há conclusão pública da investigação que permita atribuir responsabilidade criminal a Flávio Bolsonaro, Renan Santos, dirigentes do Missão ou integrantes de suas equipes.
A apuração também deverá esclarecer um ponto fundamental: como uma filiação não reconhecida pelo senador conseguiu chegar ao sistema oficial da Justiça Eleitoral utilizando credenciais válidas da legenda. O resultado dessa análise poderá indicar se o episódio decorreu exclusivamente da atuação de um terceiro, de uso indevido de acessos internos ou de outra dinâmica ainda não esclarecida.
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro teve sua filiação ao PL restabelecida pelo TSE, afastando o obstáculo partidário que havia surgido para a formalização de sua candidatura. A investigação sobre a origem da alteração, porém, permanece independente da correção cadastral determinada pela Justiça Eleitoral.