O jornal britânico The Guardian publicou um editorial na terça-feira (14) com duras críticas à política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação ao Brasil. No texto, o veículo afirma que as ameaças de novas tarifas comerciais e as investigações conduzidas pela Casa Branca representam uma tentativa de pressionar a autonomia brasileira e transformar temas internos do país em disputas comerciais.
A manifestação ocorre às vésperas da decisão do governo estadunidense sobre a possível adoção de novas tarifas contra produtos brasileiros. A expectativa é de que a Casa Branca anuncie ainda nesta quarta-feira (15) se aplicará medidas adicionais contra o Brasil, dentro de uma investigação que questiona práticas comerciais brasileiras consideradas injustas pelos Estados Unidos.
Entre os pontos citados pelos estadunidenses estão regras envolvendo plataformas digitais e até mesmo o sistema de pagamentos instantâneos Pix.

Editorial associa tarifas à defesa da democracia brasileira
Na avaliação do The Guardian, as justificativas apresentadas pelo governo Trump extrapolam o campo econômico e passam a atingir decisões ligadas à organização institucional do Brasil.
“A ameaça de tarifas de Donald Trump enquadra os esforços do Brasil para proteger sua democracia como uma prática comercial desleal — e confere ao bolsonarismo um palco em Washington”, afirma o editorial.
O jornal sustenta que a divergência entre os dois governos está relacionada, sobretudo, ao conceito de soberania nacional e ao papel do Estado na regulação do ambiente digital.
“Lula quer que o Brasil tenha capacidade de fiscalizar a desinformação antidemocrática [dentro do país]. Trump acredita que os EUA deveriam ter jurisdição sobre o espaço informacional do país”, diz o editorial.
Segundo a publicação, o governo dos EUA rejeita a posição adotada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em defesa da autonomia brasileira para regulamentar plataformas digitais e combater conteúdos considerados antidemocráticos.
STF e redes sociais entram no debate
O editorial também relembra decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) envolvendo a responsabilização de plataformas digitais.
Segundo o jornal britânico, em junho deste ano o STF respondeu ao avanço da desinformação que teria contribuído para os ataques às instituições brasileiras após as eleições presidenciais.
O texto destaca que a Corte passou a admitir a responsabilização das plataformas por determinados conteúdos publicados por usuários, obrigando empresas como X, de Elon Musk, e Meta, de Mark Zuckerberg, a remover discursos de ódio e materiais considerados antidemocráticos.
“Um mês depois, Donald Trump propôs uma tarifa de 25% sobre as importações brasileiras, queixando-se de que os juízes haviam obrigado empresas de tecnologia dos EUA a retirar do ar material ‘político’”, afirma o jornal britânico.
Pix é tratado como questão de soberania
Outro ponto abordado pelo editorial é o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, que também passou a integrar as críticas feitas por autoridades dos EUA.
Para o Guardian, o debate em torno do Pix vai além da concorrência entre meios de pagamento e envolve a independência tecnológica e financeira do Brasil.
“Outra questão de soberania diz respeito a quem controla a infraestrutura financeira do Brasil e se é possível existir, na América Latina, uma infraestrutura pública de pagamentos bem-sucedida que não esteja sob controle estadunidense”, escreve o jornal.
O editorial destaca ainda que o modelo brasileiro reduz a dependência de empresas estrangeiras do setor financeiro.
“Assim como a Índia, o Brasil construiu uma infraestrutura pública digital [o Pix] projetada para reduzir a dependência de redes de pagamento controladas por estrangeiros e proteger seu sistema doméstico de pagamentos contra pressões ou sanções externas. Na prática, o sistema contorna as redes de cartão nos moldes da Visa e da Mastercard, ameaçando os lucros dessas empresas.”
Jornal analisa cenário político brasileiro
O texto também dedica espaço ao cenário eleitoral brasileiro e menciona pesquisas recentes que colocam o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entre os principais nomes para a disputa presidencial.
Ao comentar o parlamentar, o jornal afirma:
“[Flávio] Bolsonaro é menos carismático que seu pai, mas está baseado no mesmo antiesquerdismo simplista, nas mesmas políticas punitivas de ‘lei e ordem’ e nas mesmas guerras culturais de extrema-direita”, afirma o jornal.
O Guardian também classificou como “extremamente audacioso” o pedido feito por Flávio Bolsonaro para que Donald Trump evitasse a aplicação de tarifas contra o Brasil antes das eleições presidenciais.
Em relação ao presidente Lula, o editorial apresenta um histórico de sua trajetória política e destaca seus governos.
“De operário a líder sindical e fundador de partido, Lula fez da redistribuição a linguagem da democracia brasileira. A pobreza extrema caiu de 30 milhões em 2002 para menos de 7 milhões atualmente. Ele governou de 2003 a 2011. A política brasileira é polarizada: Lula só retornou em 2023 depois que juízes anularam condenações por corrupção.”
Soberania é o centro da crítica
Na conclusão do editorial, o The Guardian sustenta que o foco da disputa entre Brasil e Estados Unidos não está nas questões comerciais apresentadas oficialmente pelo governo estadunidense, mas na capacidade do país de desenvolver políticas públicas independentes.
“A verdadeira infração [do Brasil] não é o protecionismo, mas a autonomia”, escreve o Guardian.
Em seguida, o jornal conclui:
“Trump rebatizou essa soberania brasileira como discriminação comercial injusta. É tão previsível quanto preocupante que o bolsonarismo esteja disposto a embarcar nessa narrativa.”




