Luiz Carlos Barreto, produtor, diretor e fotógrafo conhecido como Barretão, morreu na madrugada desta quarta-feira (22), aos 98 anos, depois de seis décadas de atuação que atravessaram o Cinema Novo e alguns dos maiores sucessos do cinema brasileiro.
Barretão, como era conhecido, vinha com a saúde debilitada desde março de 2024, quando sofreu uma queda em Fortaleza, durante uma viagem ao Ceará para receber uma homenagem, e estava internado desde a última terça-feira.
Graduado em Letras, ele começou no jornalismo e no fotojornalismo antes de se tornar diretor de fotografia de dois marcos dos anos 1960: “Vidas secas” (1963), de Nelson Pereira dos Santos, adaptação do romance de Graciliano Ramos, e “Terra em transe” (1967), de Glauber Rocha.
Como produtor, função pela qual ficou mais conhecido, participou de mais de 80 produções em 60 anos. Seu maior sucesso comercial foi “Dona Flor e seus dois maridos” (1976), dirigido por Bruno Barreto, seu filho mais velho, visto por quase 11 milhões de pessoas nos cinemas brasileiros.
Do jornalismo à produtora que marcou o cinema nacional
Nascido em 1928, em Sobral, no interior do Ceará, Barreto mudou-se para o Rio em 1947, aos 19 anos, ao conseguir emprego na Companhia Siderúrgica Nacional. A partir de 1950, trabalhou como repórter nos Diários Associados, primeiro na revista “A cigarra” e depois em “O cruzeiro”, onde passou a se dedicar à fotografia.
Ele conheceu Lucy Barreto em 1952, durante uma reportagem na casa da família dela, no Rio. Após uma temporada dela em Paris, Barreto viajou para reencontrá-la e se matriculou no IDHEC, o Instituto de Altos Estudos Cinematográficos. “Passei a acompanhar filmagens, conversar com diretores e produtores. Foi a minha faculdade de cinema”, lembrou em entrevista ao GLOBO em 2023.
De volta ao Brasil, aproximou-se de Nelson Pereira dos Santos na mobilização contra a censura de “Rio, 40 graus”. Em 1961, após acompanhar filmagens de “Barravento”, de Glauber Rocha, estreou como corroteirista e coprodutor de “Assalto ao trem pagador” (1962), de Roberto Farias. A LC Barreto nasceu pouco depois e começou com “Garrincha, alegria do povo” (1963), de Joaquim Pedro de Andrade.
A produtora também ajudou a viabilizar filmes como “A hora e vez de Augusto Matraga” (1965), de Roberto Santos, “O dragão da maldade contra o santo guerreiro” (1969), de Glauber Rocha, e “Brasil ano 2000” (1969), de Walter Lima Jr. Ao lado de Lucy, Barretão formou um dos casais de produtores mais conhecidos do país.
Os filhos Bruno, Fábio e Paula Barreto também seguiram no cinema. Bruno dirigiu “O que é isso, companheiro?” (1997), indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, e Fábio comandou “O quatrilho” (1995), que recebeu a mesma indicação. Fábio sofreu um grave acidente de carro após o lançamento de “Lula, o filho do Brasil” (2009), permaneceu dez anos em coma e morreu em 2019, aos 62 anos.
Barretão manteve atuação pública em defesa do audiovisual. Em 2019, participou de audiência sobre ação da Rede contra decreto de Bolsonaro que alterava a estrutura do Conselho Superior de Cinema. Na campanha de 2022, aos 94 anos, participou de reuniões com artistas sobre a recriação do Ministério da Cultura.
A LC Barreto rodou em 2022 o ainda inédito “Deus ainda é brasileiro”, de Cacá Diegues, continuação de “Deus é brasileiro” (2003). Parceiros desde o Cinema Novo, Barreto e Cacá também trabalharam em “Bye bye Brasil” (1980), exibido em sessão especial no Festival de Cannes de 2024 em homenagem aos 60 anos da produtora.
Luiz Carlos Barreto deixa a esposa, Lucy, os filhos Paula e Bruno, e nove netos: Julia, Mariana, Lucas e João, filhos de Fábio; Helena, Olympia e Gabriel, de Bruno; e Camilla e Felipe, de Paula. Em sua última entrevista ao GLOBO, disse: “O vírus do cinema contaminou toda a família”.