A agência de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (ICE) prepara uma ofensiva contra imigrantes haitianos enquanto o governo Donald Trump avança para encerrar o Status de Proteção Temporária (TPS), programa que permite a cerca de um milhão de estrangeiros viver e trabalhar legalmente no país.
A Suprema Corte dos EUA autorizou em junho a administração Trump a encerrar a iniciativa. Na segunda-feira (27), cerca de 350 mil beneficiários do Haiti e de outros países perderam autorizações de trabalho na primeira etapa posterior à decisão judicial. Outros cerca de 190 mil salvadorenhos podem perder o status quando a proteção expirar, em setembro.
Cerca de 70% dos beneficiários do TPS participavam da força de trabalho americana, muitos na construção civil e na área de saúde, segundo análise da Universidade da Pensilvânia. “Para determinados lugares e setores, dezenas de milhares de trabalhadores deixando de poder trabalhar legalmente representarão um impacto muito grande”, afirmou Alexander Arnon, diretor de análise de políticas do Penn Wharton Budget Model.
Entidades empresariais lideradas pela Câmara de Comércio dos EUA iniciaram uma campanha no Capitólio por medidas legislativas. Em carta enviada ao Senado em 10 de julho, a entidade afirmou: “O Congresso pode, e deve, exercer sua autoridade plena sobre a política migratória para evitar perturbações significativas na força de trabalho americana e impedir uma crise humanitária desnecessária”.
Senado bloqueia extensão e governo defende fim do TPS
Autoridades estaduais e locais também pressionam por uma solução. O governador de Ohio, o republicano Mike DeWine, classificou o fim do TPS para haitianos como um “erro” e previu impacto econômico no estado. No sul da Flórida, a prefeita de Miami-Dade, Daniella Levine Cava, a comissária Marleine Bastien e empresários discutiram as consequências da medida; Bastien disse que “encerrar o TPS custa dinheiro aos Estados Unidos”.
Na quarta-feira, o senador Eric Schmitt, republicano do Missouri, bloqueou uma tentativa democrata de estender o TPS para haitianos. No plenário, ele disse que o programa foi “criado para emergências”, mas que democratas o transformaram em “um mecanismo de mão única rumo à migração permanente em massa”.
O TPS foi criado pelo Congresso e sancionado pelo presidente George H. W. Bush em 1990 para proteger estrangeiros que já estavam nos EUA e não podiam retornar com segurança a seus países por causa de guerras ou desastres naturais. O governo Trump defende o fim do programa; o porta-voz do Serviço de Cidadania e Imigração, Zach Kahler, afirmou que o Departamento de Segurança Interna está “cumprindo a lei e restaurando o bom senso”.
Stephen Miller, um dos principais formuladores da política migratória de Trump, respondeu a jornalistas sobre a segurança no Haiti: “Para os haitianos? Completamente. Haitianos vivem no Haiti. Não é nossa posição que haitianos devam deixar o Haiti. Seria absurdo afirmarmos que os haitianos não poderiam viver no Haiti. É o país deles.” Haitianos recebem proteção pelo TPS desde 2010, quando um terremoto matou cerca de 300 mil pessoas; após o assassinato do último presidente eleito, em 2021, gangues passaram a controlar grandes áreas de Porto Príncipe, em meio a sequestros, assassinatos, deslocamento interno de mais de um milhão de pessoas e insegurança alimentar.
A Fox News informou que o ICE planeja concentrar operações em Springfield, em Ohio, cidade com grande população haitiana e alvo de tensão na campanha de 2024, quando JD Vance disse falsamente que haitianos roubavam animais de estimação de moradores para comê-los. Os EUA fazem um voo de deportação mensal ao Haiti desde dezembro de 2023; o mais recente chegou a Cap-Haïtien em 16 de julho, com mais de 100 deportados, e a expectativa é de aumento significativo desses voos.
O governo já anunciou o encerramento do TPS para a maioria dos países contemplados, incluindo Etiópia, Mianmar, Somália, Sudão do Sul, Síria e Iêmen, enquanto beneficiários de El Salvador, Líbano, Sudão e Ucrânia ainda mantêm autorização para trabalhar. Empregadores que contratarem trabalhadores sem documentação podem enfrentar multas e acusações criminais, e Patricia Campos-Medina, cientista política da Universidade Cornell, afirmou que muitos beneficiários “têm filhos nascidos nos Estados Unidos, possuem casa própria e administram negócios”.