O avanço da inteligência artificial e o consumo frequente de vídeos curtos nas redes sociais abriram uma nova preocupação para estudantes que se preparam para o Enem e vestibulares. O problema, segundo pesquisas recentes na área de educação, não está necessariamente no uso dessas tecnologias, mas na substituição do esforço de raciocínio por respostas prontas. Para provas que exigem interpretação, concentração e construção de argumentos, depender excessivamente de ferramentas automáticas pode criar uma percepção de domínio do conteúdo que nem sempre se confirma quando o aluno precisa responder sozinho.
Um relatório publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2026 chama atenção justamente para essa diferença entre realizar uma tarefa com inteligência artificial e efetivamente aprender. Segundo a entidade, ferramentas de IA generativa podem melhorar o resultado imediato de atividades, mas isso não significa necessariamente aquisição de conhecimento. A OCDE destaca ainda riscos relacionados à chamada “preguiça metacognitiva”, quando parte do esforço intelectual necessário ao aprendizado é transferida para a tecnologia.
Um dos experimentos citados nesse debate acompanhou estudantes do ensino médio na Turquia durante aulas de matemática. Alunos que tiveram acesso a uma ferramenta semelhante ao ChatGPT apresentaram desempenho 48% superior nos exercícios realizados com a assistência da IA. Quando a ferramenta foi retirada no exame, porém, esse mesmo grupo teve notas 17% inferiores às dos estudantes que não haviam utilizado a IA. Já um sistema desenvolvido especificamente para ensinar, oferecendo orientações em vez de simplesmente entregar respostas, eliminou essa queda no desempenho final.
Os vídeos curtos também entram nessa discussão. Estudos recentes relacionam o uso excessivo ou problemático desse tipo de conteúdo a dificuldades de controle da atenção e autorregulação, embora as pesquisas não permitam concluir que assistir ao TikTok, isoladamente, provoque necessariamente pior desempenho escolar. Uma revisão publicada em 2026 encontrou associação entre dependência de vídeos curtos e alterações principalmente em atenção e autocontrole entre adolescentes e jovens. Ao mesmo tempo, pesquisas mostram que vídeos curtos também podem ter utilidade educacional quando empregados de maneira planejada e complementar ao ensino tradicional.
Para quem pretende enfrentar uma prova extensa como o Enem, o desafio passa a ser usar a tecnologia sem abandonar habilidades que continuam sendo cobradas diretamente do candidato. Resolver questões sem consulta, interpretar textos longos, revisar os próprios erros e escrever redações autorais permanecem etapas fundamentais. A inteligência artificial pode ser utilizada para explicar conceitos, apontar falhas e sugerir exercícios, mas especialistas e organismos educacionais defendem que ela funcione como apoio ao aprendizado e não como substituta do raciocínio do estudante.




