Em setembro de 2005, Flávio Bolsonaro entrou no Batalhão Especial Prisional, em Benfica, para uma visita que se tornaria um dos capítulos mais conhecidos de sua trajetória na Assembleia Legislativa do Rio. O então deputado estadual havia proposto a concessão da Medalha Tiradentes a Adriano Magalhães da Nóbrega. Adriano estava preso, acusado de homicídio. A homenagem foi entregue dentro da unidade prisional.
Mais de vinte anos depois, o sobrenome voltou aos autos do Ministério Público do Rio. Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano e ex-assessora do gabinete de Flávio na Alerj, aparece entre os denunciados pelo GAECO/MPRJ na Operação Legado, deflagrada em março de 2026. A nova investigação não acusa Flávio Bolsonaro e não demonstra que o senador tenha participado ou tivesse conhecimento dos crimes atribuídos ao grupo de Adriano. O que os documentos permitem reconstruir é uma sequência de relações políticas e funcionais que começou muito antes das investigações atuais.
A medalha entregue dentro da prisão
A homenagem a Adriano não surgiu depois de sua prisão. Flávio já havia apresentado, em 2003, uma moção de louvor ao então policial militar. Em 2005, voltou a homenageá-lo, desta vez com a Medalha Tiradentes, a maior comenda concedida pela Alerj. O Projeto de Resolução nº 1.067/2005 identifica Flávio Bolsonaro como autor e Adriano como homenageado.
Naquele momento, Adriano estava preso e respondia pelo homicídio de Leandro dos Santos Silva. Ele seria condenado pelo Tribunal do Júri em outubro de 2005 a 19 anos e seis meses de prisão, mas a condenação não permaneceu definitiva: em novo julgamento, em 2007, Adriano foi absolvido. Por isso, o episódio de 2005 deve ser descrito com essa sequência completa, sem transformar a condenação posteriormente revertida em um resultado judicial definitivo.


A presença de Flávio na cadeia também não depende apenas de relatos de terceiros. Em registro jornalístico preservado pela Biblioteca Digital do Senado Federal, a defesa do senador reconheceu que ele esteve no presídio em 2005 para ver Adriano e entregar a Medalha Tiradentes. A manifestação foi dada depois de o então vereador Ítalo Ciba, que esteve preso com Adriano, afirmar que Flávio havia feito mais de uma visita.
A versão de Flávio foi mais restrita: segundo a nota reproduzida no acervo do Senado, ele esteve “só uma vez” na cadeia, em 2005, para ver Adriano e entregar a medalha. A defesa também afirmou que não havia relação de Flávio Bolsonaro ou de sua família com Adriano além daquela apresentada publicamente. Assim, há confirmação da visita de 2005 pelo próprio senador; a alegação de outras visitas permanece como relato de terceiros e não é tratada nesta reportagem como fato comprovado.

O arquivo eletrônico da Alerj, reproduzido em reportagem publicada em 2019, também registrou a solenidade de 9 de setembro de 2005 no “Batalhão Especial Prisional”. Somados, o projeto legislativo, o registro da cerimônia e a manifestação da própria defesa sustentam o ponto central: Flávio propôs a homenagem e reconheceu ter ido à prisão para entregá-la a Adriano.
A mãe de Adriano no gabinete de Flávio
Onze anos depois da entrega da medalha, a relação passou a ter outro registro administrativo. A ficha funcional de Raimunda Veras Magalhães mostra que ela foi designada assessora parlamentar V no gabinete de Flávio Bolsonaro em maio de 2016. O documento registra o ato E/MD/1119/2016, o processo 4103/2016 e a exoneração em 14 de novembro de 2018.

Raimunda não foi a única pessoa da família de Adriano a aparecer nos registros do antigo gabinete. Uma denúncia apresentada pelo MPRJ em 2020 registrou que Danielle Mendonça da Costa, então mulher de Adriano, havia sido nomeada anos antes. A mesma peça menciona a entrada de Raimunda nos quadros da Assembleia. Essas passagens pertencem à narrativa acusatória daquele processo e não equivalem a condenação. Parte das provas que sustentaram a investigação das chamadas “rachadinhas” foi posteriormente invalidada pelo Supremo Tribunal Federal.

Em 2026, Raimunda reaparece na Operação Legado
A história ganhou um capítulo novo em 19 de março de 2026. O GAECO/MPRJ anunciou a Operação Legado e informou ter apresentado três ações penais envolvendo 19 denunciados. Segundo o Ministério Público, uma das frentes trata da estrutura criminosa associada a Adriano da Nóbrega e outra da lavagem e ocultação de patrimônio atribuídos ao grupo.
No comunicado oficial, o MPRJ afirma que quatro empresas analisadas movimentaram mais de R$ 8,5 milhões em pouco mais de um ano e cita Raimunda nominalmente entre os denunciados. O órgão sustenta ainda que integrantes da organização permaneceram em atividade depois da morte de Adriano. São acusações do Ministério Público que ainda dependem do contraditório e da apreciação judicial.

O MPRJ descreve Adriano, na Operação Legado, como ex-miliciano e contraventor e atribui a ele a liderança anterior da estrutura investigada. Em investigações anteriores, Adriano também foi apontado pelo Ministério Público como integrante de milícia e ligado ao chamado Escritório do Crime. Ele morreu em fevereiro de 2020, na Bahia, durante uma operação policial. Esses registros explicam por que a relação histórica com um parlamentar ganhou relevância pública.
Uma sequência de fatos – e um limite claro
Os documentos deixam uma cronologia difícil de ignorar. Flávio homenageou Adriano quando ainda era deputado estadual e reconheceu ter ido à prisão em 2005 para entregar a Medalha Tiradentes. Anos depois, a mãe do ex-PM passou a trabalhar formalmente em seu gabinete. Em 2018 e 2019, Raimunda entrou no radar de diligências do MPRJ relacionadas ao antigo gabinete. Agora, em 2026, ela aparece como denunciada em outra investigação, a Operação Legado, voltada à estrutura financeira que o Ministério Público atribui ao grupo de Adriano.
Há, porém, uma fronteira que os documentos não permitem ultrapassar. A Operação Legado não acusa Flávio Bolsonaro. Também não foi localizado documento que demonstre que ele soubesse das atividades criminosas posteriormente atribuídas a Adriano ou que as nomeações de familiares tenham sido feitas para favorecer qualquer prática ilegal. A reportagem registra relações documentadas e acusações formalizadas pelo Ministério Público, sem converter proximidade política ou funcional em participação criminal.
O outro lado
Ao responder sobre as visitas ao presídio, Flávio Bolsonaro reconheceu a ida de 2005 para ver Adriano e entregar a Medalha Tiradentes, mas negou que mantivesse relação com ele nos termos sugeridos por seus críticos. Em manifestações públicas posteriores, o senador também sustentou que, à época das homenagens, não seria possível prever os crimes que viriam a ser atribuídos ao ex-policial.
No caso da Operação Legado, Raimunda Veras Magalhães figura como denunciada, o que não significa condenação. A defesa tem direito de contestar as acusações, apresentar provas e recorrer das decisões que vierem a ser tomadas. O Expresso Rio manterá este texto atualizado caso novas manifestações das defesas ou decisões judiciais alterem o quadro descrito nesta reportagem.




