A professora e ex-juíza federal Luciana Bauer afirma ter passado por uma situação que classifica como “absurda”, “arbitrária” e “fora de qualquer protocolo” ao desembarcar nos Estados Unidos após passar férias no Brasil.
Radicada na Flórida, Bauer conta que foi retirada da fila comum da imigração e encaminhada para uma sala de inspeção secundária depois que um agente anexou ao seu passaporte um post-it com a sigla “PCC”.
Segundo ela, o episódio começou ainda no guichê da imigração. “Eu estava na fila geral quando o agente começou a perguntar o que eu tinha ido fazer no Brasil. Respondi que meus pais moram lá, que passei férias com eles. Meus pais são alemães e brasileiros, então tenho os dois passaportes. Como fiz meu green card pelo passaporte alemão, sempre entro usando esse documento”, disse ao DCM.
Foi nesse momento que o agente escreveu a sigla “PCC” em um post-it, prendeu o papel aos seus três passaportes e determinou que ela o acompanhasse até outra sala. “Até meu filho perguntou: ‘Mamãe, o que é PCC?’. O agente apenas disse: ‘Vamos para a sala de averiguação’”, conta.
A ex-juíza afirma que, em um primeiro momento, imaginou que a sigla pudesse fazer referência ao chamado Police Clearance Certificate — documento de antecedentes criminais exigido em processos migratórios. Depois, concluiu que essa hipótese não fazia sentido.
“Não era aquele PCC relacionado ao certificado de antecedentes. Esse documento é apresentado quando você solicita o visto ou o green card, não quando já está entrando no país”, diz.
“Naquele momento eu entendi que o PCC dizia respeito a uma averiguação para verificar se eu teria algum vínculo com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital”.
Segundo Bauer, o motivo da suspeita teria sido considerado por ela completamente descabido.
“O agente achou muito estranho eu ter passaporte alemão e brasileiro e ter permanecido dois meses no Brasil. Foi uma conclusão totalmente absurda e arbitrária”, afirma.
Ela conta que foi conduzida a uma sala espelhada, contígua ao setor da imigração, levando as malas e acompanhada dos filhos.
“O agente pegou os meus três passaportes, colocou o post-it escrito PCC num papel laranja e me levou para uma sala de averiguação. Lá havia uma mulher em um guichê mais distante. Ele entregou toda a documentação para ela e pediu que eu aguardasse”, conta.
Durante a espera, Bauer lembra que chegou a cogitar a possibilidade de ser presa.
“Naquele momento eu pensei: se o ICE me prender, pelo menos preciso colocar os óculos nas crianças e avisar meu marido. Peguei os óculos dos meus filhos e entreguei meu celular para o Marcos, porque pensei que, se eu fosse detida, pelo menos ele conseguiria chamar alguém. Nessas situações, quando pai ou mãe são presos, as crianças podem acabar sendo encaminhadas para o serviço social”, relata.
“Fiquei muito calma porque pensei que não tinha absolutamente nada a temer”.
A espera durou poucos minutos. “Depois de três ou quatro minutos, a agente simplesmente me chamou, devolveu meus documentos e disse apenas ‘obrigado’. Não precisei responder nenhuma pergunta”, detalha.
Para Bauer, a rápida liberação ocorreu porque as autoridades americanas já tinham acesso a todo seu histórico profissional:
“Eles têm toda a minha ficha. Sabem que fui juíza federal durante toda a vida, que fiz mestrado, doutorado e diversos cursos em universidades americanas. Inclusive, estudei temas ligados à máfia e ao crime organizado. Eles verificaram que eu não tinha qualquer ligação com o PCC”, afirma.
Ela aponta que não conseguiu registrar fotograficamente o post-it porque o uso de celulares é proibido na área de imigração.
Depois do episódio, Bauer procurou colegas da área de segurança pública para tentar compreender o significado da sigla.
“Conversei com um colega delegado federal para saber se aquele PCC poderia significar algum procedimento de inteligência ou de compliance. Ele me respondeu que não. Disse que se tratava de um código operacional interno”, conta Luciana.
“Nunca vi esse tipo de procedimento. Se a pessoa possui mandado da Interpol ou qualquer restrição internacional, isso aparece imediatamente no sistema. Não existe razão para fazer esse tipo de averiguação aleatória. Isso foge completamente ao protocolo das polícias de fronteira”.
Bauer acredita que o episódio pode fazer parte de uma política mais ampla de endurecimento contra determinados perfis de viajantes.
“Imagina quantas pessoas podem estar passando pela mesma situação. Tenho um colega diplomata que trabalha em Brasília, junto ao chanceler. Avisei imediatamente e ele ficou chocado”, diz.
“Eu sinceramente não sei se eles estão tentando intimidar as pessoas ou se estão fazendo uma espécie de pesca probatória, procurando alguém que tenha algum problema para depois construir uma narrativa de que o governo brasileiro teria ligações com o PCC ou com o Comando Vermelho. Foi a única hipótese que consegui imaginar, porque não existe justificativa para esse tipo de averiguação quando não há qualquer ordem de prisão ou investigação formal”.
Ela descorda que “já houve o caso de um cidadão holandês que publicava conteúdos sobre a Palestina e acabou deportado. É a falência total da Primeira Emenda de liberdade de expressão”.
Marco Rubio amplia fiscalização das redes sociais de estrangeiros que solicitam vistos
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ampliou a política de verificação das redes sociais de estrangeiros que solicitam vistos para ingressar no país. Pela nova orientação do Departamento de Estado, candidatos deverão manter públicos os perfis em plataformas como X, Instagram, Facebook, TikTok e outras redes para que agentes americanos possam analisar publicações, interações e conexões durante o processo migratório.
Segundo o governo americano, a chamada “análise de presença online” busca identificar eventuais ameaças à segurança nacional, à segurança pública e aos interesses dos Estados Unidos antes da emissão do visto. O Departamento de Estado afirma que a medida integra o processo de triagem de todos os estrangeiros que pretendem entrar no país, embora não detalhe publicamente todos os critérios utilizados na avaliação.
Governo Trump estende análise de redes sociais a jornalistas estrangeiros
A política de monitoramento também foi ampliada para atingir jornalistas estrangeiros que solicitam visto de trabalho nos Estados Unidos. Segundo reportagem do veículo conservador The Daily Signal, baseada em um memorando interno, profissionais da imprensa passarão a integrar o grupo submetido à análise obrigatória da presença digital.
O documento afirma ainda que candidatos a determinadas categorias de vistos destinados a trabalhadores do Canadá e do México também passarão a ser incluídos na nova triagem. Embora o Departamento de Estado tenha se recusado a comentar oficialmente o conteúdo do memorando, alegando política de não comentar documentos internos, reiterou que a análise das redes sociais tem o objetivo de verificar se os solicitantes cumprem os requisitos previstos na legislação americana e não representam riscos à segurança nacional, à segurança pública ou aos interesses dos Estados Unidos.