Dez anos após a conclusão do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu avaliou que o episódio teve impacto profundo sobre a reorganização política do país e contribuiu, em sua interpretação, para o crescimento do bolsonarismo. Em entrevista à Sputnik Brasil, Dirceu classificou o afastamento da então presidente como um “golpe parlamentar jurídico” e afirmou que o processo teria representado uma ruptura no ambiente político construído após a redemocratização.
Dilma perdeu definitivamente o mandato em 31 de agosto de 2016, após o Senado aprovar seu impeachment por 61 votos a 20. Formalmente, a decisão considerou que a então presidente cometeu crimes de responsabilidade relacionados à edição de decretos de créditos suplementares sem autorização legislativa e a atrasos em repasses referentes ao Plano Safra. O julgamento no Senado foi presidido pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski. Em votação separada, Dilma manteve seus direitos políticos.
A caracterização do processo como “golpe”, portanto, corresponde à interpretação política de Dirceu e de setores que se posicionaram contra o impeachment. À época, os defensores do afastamento sustentaram que havia fundamento constitucional e crime de responsabilidade para a perda do mandato. Dez anos depois, o episódio continua sendo objeto de diferentes interpretações políticas, jurídicas e acadêmicas sobre seus efeitos na democracia brasileira.
Na avaliação de Dirceu, a crise aberta naquele período favoreceu o fortalecimento de movimentos políticos à direita e posteriormente do bolsonarismo. “Acho que o golpe contra Dilma abriu as portas para o crescimento da extrema-direita e do bolsonarismo”, declarou. Segundo sua análise, a polarização política aprofundada nos anos seguintes ajudou a consolidar um movimento que permanece com peso eleitoral no país.
O tema também chega diretamente à eleição presidencial de 2026. Flávio Bolsonaro (PL) disputa a Presidência e aparece atualmente entre os principais adversários do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição. Levantamentos divulgados no fim de agosto mostram os dois nomes nas primeiras posições da corrida presidencial, embora os percentuais variem conforme o instituto e a metodologia utilizada.
Durante a entrevista, Dirceu também afirmou acreditar que existem movimentos externos capazes de interferir no debate político brasileiro e citou os Estados Unidos e as disputas comerciais envolvendo tarifas. A declaração representa uma avaliação do ex-ministro e não, por si só, comprovação de interferência estrangeira no processo eleitoral. Segundo ele, questões relacionadas a comércio, tecnologia, corrupção e outros temas estariam sendo utilizadas dentro de uma agenda de pressão sobre o Brasil.
Apesar das críticas aos adversários políticos, José Dirceu também reconheceu insatisfação de uma parcela da sociedade com o atual governo Lula. O ex-ministro citou, entre os problemas que considera relevantes, jovens com formação superior enfrentando dificuldades para conseguir empregos compatíveis com sua qualificação, além de trabalhadores submetidos a longas jornadas e baixos salários. “Então há muita insatisfação com o nosso governo. Ainda bem que há”, afirmou.
Para Dirceu, o desafio do campo governista na eleição deste ano será apresentar propostas capazes de responder a essas demandas e oferecer perspectivas de ascensão social, emprego e melhoria da qualidade de vida. Entre as áreas mencionadas pelo ex-ministro estão reindustrialização, infraestrutura, qualificação profissional, habitação, transporte e ampliação de direitos sociais. A avaliação mostra que, uma década depois do impeachment de Dilma Rousseff, as consequências políticas de 2016 continuam presentes nas interpretações e disputas que cercam a eleição presidencial de 2026.




