A taxa de desemprego no Brasil recuou para 5,4% no trimestre encerrado em junho, atingindo o menor nível já registrado para esse período desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), iniciada em 2012. Os dados foram divulgados nesta quinta-feira (30) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O índice representa uma queda em relação ao trimestre encerrado em março, quando a desocupação era de 6,1%. O resultado também ficou exatamente em linha com as expectativas do mercado financeiro, cuja mediana das projeções compiladas pela Bloomberg apontava taxa de 5,4%.
A pesquisa considera tanto trabalhadores formais — com carteira assinada ou CNPJ — quanto aqueles que atuam na informalidade. Pelos critérios do IBGE, é considerada desempregada a pessoa com 14 anos ou mais que não está ocupada e procura ativamente uma oportunidade de trabalho.
Economia aquecida ajuda a reduzir a desocupação
A redução do desemprego é resultado de uma combinação de fatores econômicos e demográficos. Entre eles está o desempenho positivo da atividade econômica nos últimos anos, impulsionado também por medidas de estímulo adotadas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um período que antecede as eleições.
Outro fator considerado relevante é a mudança no perfil da população brasileira. Com o envelhecimento da sociedade, uma parcela crescente de trabalhadores deixa o mercado ou reduz a procura por emprego, diminuindo naturalmente a pressão sobre os indicadores de desocupação.
Embora essa transformação contribua para taxas menores de desemprego, economistas alertam que ela também amplia os desafios para o sistema previdenciário, já que o número de aposentadorias tende a crescer nos próximos anos.
Além disso, a expansão das atividades ligadas à tecnologia também influencia o mercado de trabalho. Um estudo divulgado no ano passado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) estimou que o trabalho realizado por meio de aplicativos reduz a taxa de desemprego em aproximadamente um ponto percentual.
Debate sobre jornada de trabalho ganha força
A divulgação da Pnad ocorre em um momento em que o país discute mudanças nas regras da jornada de trabalho, especialmente o projeto que propõe o fim da escala 6×1, modelo em que o trabalhador atua durante seis dias consecutivos e descansa apenas um.
A proposta divide opiniões entre representantes dos trabalhadores e do setor empresarial.
Enquanto sindicatos e entidades ligadas aos empregados defendem que jornadas menores podem melhorar a qualidade de vida e aumentar a produtividade, empresários demonstram preocupação com o possível aumento dos custos operacionais.
Neste mês, o economista Christopher Pissarides, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2010, afirmou que diversos países caminham para a redução da carga horária de trabalho e que jornadas menores tendem a elevar a produtividade dos trabalhadores.
O tema vem ganhando espaço no debate público e deve continuar em discussão nos próximos meses, especialmente diante do cenário de baixo desemprego.
IBGE evita comparação direta entre trimestres
Embora a taxa de desemprego já tivesse atingido 5,6% no trimestre encerrado em maio, o IBGE recomenda cautela na comparação direta entre esses indicadores.
Isso ocorre porque os períodos analisados compartilham meses em comum, o que reduz a independência estatística entre os resultados e pode gerar interpretações equivocadas sobre a evolução do mercado de trabalho.
Por essa razão, o instituto utiliza como principal referência a comparação com o trimestre encerrado em março, quando a taxa estava em 6,1%.
Mudanças na direção da Pnad geram críticas
A divulgação dos novos dados também acontece poucas semanas após mudanças promovidas pela presidência do IBGE na estrutura responsável pelas pesquisas domiciliares.
No mês passado, o presidente do instituto, Marcio Pochmann, substituiu duas coordenadoras da área. Entre elas está Adriana Beringuy, que comandava a Coordenação de Pesquisas por Amostra de Domicílios (Copad), responsável pela elaboração da Pnad Contínua.
A direção do IBGE não informou oficialmente os motivos das alterações.
Já a Associação dos Servidores do IBGE (Assibge) afirmou que as substituições fazem parte de uma política de troca de gestores que manifestaram divergências em relação a iniciativas adotadas pela atual administração.
As mudanças ocorrem em meio a um ambiente de tensão interna no instituto, que desde 2024 registra conflitos entre parte dos servidores e a direção do órgão.
Mesmo com esse cenário, os novos números reforçam a continuidade do processo de redução do desemprego no país, embora especialistas ressaltem que desafios como a informalidade, o envelhecimento da população e a necessidade de ganhos de produtividade continuam no centro das discussões sobre o futuro do mercado de trabalho brasileiro.