A articulação da família Bolsonaro em favor de sanções dos Estados Unidos contra o Brasil pode atingir diretamente o agronegócio, setor que forma uma das principais bases políticas da extrema-direita. A avaliação foi feita pelo jornalista Mauro Zafalon, da coluna Vaivém das Commodities, ao tratar dos efeitos comerciais da escalada entre os dois países.
O ponto de maior risco está na justificativa usada pelo USTR, o Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos, para defender barreiras ao Brasil. O órgão afirma que produtores brasileiros exploram terras desmatadas ilegalmente para obter vantagem sobre agricultores estadunidenses.
Na análise, pedidos feitos por filhos de Jair Bolsonaro para que Washington imponha sanções ao Brasil, com o objetivo de favorecer o ex-presidente, podem abrir caminho para medidas comerciais mais duras contra produtos brasileiros no futuro. O Brasil é concorrente direto dos Estados Unidos em áreas relevantes do setor agropecuário.
Donald Trump tem forte apoio entre produtores rurais estadunidensee enfrenta uma disputa comercial mais ampla com a China. Sem um acordo considerado satisfatório com Pequim, o governo dos EUA tende a buscar respostas para demandas do campo também em outros mercados, incluindo o brasileiro.
Relatório dos EUA cita desmatamento e preserva produtos de interesse estadunidense
O secretário de Estado Marco Rubio deu uma explicação política para as sanções ao criticar o presidente Lula e afirmar que suas ações seriam ruins para os brasileiros. Para Zafalon, a fala também busca reduzir o impacto eleitoral das tarifas sobre Flávio Bolsonaro, que defende medidas contra o Brasil, mas não antes das eleições.
Os Estados Unidos, por enquanto, não impuseram barreiras a produtos dos quais dependem fortemente do Brasil, como a carne bovina. A adoção de tarifas, porém, pode facilitar restrições posteriores caso a oferta interna estadunidensemelhore.
O relatório do USTR registra que parte dos produtores dos EUA prefere negociações e maior engajamento comercial entre os dois países em vez de tarifas. No setor de etanol, um dos pontos de maior atrito, produtores afirmam que uma tarifa estadunidense acima da brasileira traria instabilidade ao mercado dos Estados Unidos.
Embora o avanço do desmatamento apareça entre as razões para sanções, a madeira brasileira, especialmente a tropical, ficou fora da tarifa. O documento justifica a isenção pela qualidade do produto, pela resistência a incêndios e pela falta de alternativas de compra em outros países.
No primeiro semestre deste ano, o Brasil exportou US$ 6,7 bilhões em produtos do agronegócio para os Estados Unidos e importou US$ 2,5 bilhões. Os cinco principais itens liberados da taxa somaram US$ 3,65 bilhões: carne bovina, café, celulose, suco e madeira; na lista de produtos livres de tarifa também aparecem antiguidades com mais de 250 anos.