O deputado democrata Ro Khanna afirmou ter sido retido por cerca de 90 minutos por colonos israelenses armados durante uma visita à Cisjordânia ocupada. O grupo bloqueou a saída de sua comitiva nas proximidades de Khirbet Zanuta, comunidade palestina abandonada após uma sequência de ataques e demolições promovidas por colonos. Khanna, parlamentar da Califórnia e possível candidato à Presidência em 2028, descreveu o episódio como o momento mais assustador de sua viagem.
Segundo o deputado, homens portando fuzis M4 de fabricação estadunidense cercaram o veículo, bateram nos pneus e impediram a passagem. Khanna relatou que soldados israelenses chegaram ao local, mas inicialmente permaneceram ao lado dos colonos. A comitiva só conseguiu sair depois de contatos com a Embaixada dos Estados Unidos e a polícia israelense. O Exército de Israel apresentou outra versão e afirmou que militares e policiais dispersaram os colonos e liberaram os veículos.
A visita teve um caráter político explícito. Ao contrário do roteiro tradicional de congressistas estadunidenses, baseado em encontros com autoridades israelenses, Khanna organizou uma programação conduzida por palestinos e centrada em comunidades atingidas pela ocupação. Ele disse que a experiência reforçou sua disposição de concorrer à Casa Branca e definiu Gaza, a Palestina e Israel como um “teste moral” para o Partido Democrata. Israel rejeita as acusações de genocídio em Gaza e de apartheid na Cisjordânia feitas pelo parlamentar.
Israeli settlers, brandishing American made M4s, detained me & other Americans on my trip to Palestine.
When the IDF arrived, they sided with the settlers & continued our detention.
They made a huge mistake.
You will be hearing more soon. https://t.co/rZw8bRAn64 pic.twitter.com/4z50Ye4I7K
— Ro Khanna (@RoKhanna) July 11, 2026
O episódio ocorre a menos de quatro meses das eleições de meio de mandato de 3 de novembro, nas quais estarão em disputa todas as 435 cadeiras da Câmara e 35 vagas do Senado. A política para Israel deixou de ser um consenso interno e já provoca derrotas em primárias, pressiona parlamentares a rever a ajuda militar e separa uma direção partidária historicamente alinhada ao governo israelense de uma base cada vez mais favorável aos direitos palestinos.
Zohran Mamdani tornou-se o principal símbolo eleitoral dessa mudança. Eleito prefeito de Nova York depois de acusar Israel de genocídio, o democrata socialista apoiou três candidatos críticos ao governo de Benjamin Netanyahu nas primárias de junho. Todos venceram; dois deles derrubaram deputados democratas em exercício. Darializa Avila Chevalier derrotou Adriano Espaillat, Brad Lander superou Dan Goldman e Claire Valdez venceu a disputa por uma cadeira aberta.
A vitória do grupo de Mamdani foi tratada como um golpe contra o campo pró-Israel e a influência de organizações como o Comitê de Assuntos Públicos Estados Unidos–Israel, o AIPAC. O resultado, porém, não significa uma conversão completa do partido: Ritchie Torres, um dos defensores mais firmes de Israel entre os democratas, venceu sua primária com ampla vantagem. O que desapareceu foi a capacidade de tratar o apoio incondicional a Israel como posição automática e sem custo eleitoral.
A opinião pública ajuda a explicar a guinada. A avaliação favorável de Israel entre eleitores democratas caiu de 59%, em 2018, para 22% em maio deste ano. Outra pesquisa mostrou que 58% dos democratas consideram que os Estados Unidos apoiam Israel em excesso. No conjunto da população, 60% já têm uma visão desfavorável do país, segundo levantamento do Pew Research Center.
A ruptura chegou até figuras moderadas. Rahm Emanuel, ex-chefe de gabinete de Barack Obama e tradicional defensor de Israel, classificou o país como um “pária territorial” e propôs o fim dos subsídios militares estadunidenses. No Senado, Elizabeth Warren, Ed Markey, Chris Van Hollen e outros parlamentares pressionam o partido a bloquear uma legislação de defesa até que haja debate sobre o aprofundamento da cooperação militar com Israel.
A cena de um deputado dos Estados Unidos impedido de deixar uma comunidade palestina por homens armados condensou uma disputa que já estava em curso. De um lado, permanece a estrutura democrata ligada à aliança histórica com Israel; de outro, cresce uma frente formada por jovens, progressistas e candidatos impulsionados principalmente por Mamdani, e que vêem a ocupação como uma questão central de direitos humanos. As eleições de novembro mostrarão se essa divisão será contida depois das primárias ou se marcará uma ruptura duradoura na coalizão democrata.