Pular para o conteúdo
Justiça

Braskem aprova recuperação extrajudicial para dívida de US$ 10,9 bi

Por 4 min de leitura Expresso Rio
Expresso Rio
Imagem: Divulgação
Seguir no Google News
Ouvir texto Pronto

A Braskem iniciou uma nova etapa de sua reestruturação financeira nesta segunda-feira (24), após o Conselho de Administração aprovar o ajuizamento de um pedido de recuperação extrajudicial da companhia e de determinadas controladas. Segundo fato relevante divulgado ao mercado, o procedimento deverá abranger aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras quirografárias, valor equivalente a cerca de R$ 56 bilhões pela cotação atual.

O comunicado oficial faz uma ressalva importante: a administração aprovou o ajuizamento e informou que o protocolo formal será realizado após a conclusão dos documentos necessários. Notícias publicadas nesta segunda-feira indicaram que o pedido já teria sido apresentado à Justiça de São Paulo, mas, para efeito jurídico, a informação oficialmente comunicada pela companhia até a manhã desta segunda é a aprovação do procedimento e a preparação para sua formalização.

A recuperação extrajudicial é prevista pela Lei nº 11.101/2005 e permite que empresas negociem uma reorganização de determinadas dívidas com seus credores, submetendo posteriormente o acordo à homologação judicial. O mecanismo não equivale a uma decretação de falência e, por si só, não significa o encerramento das atividades da companhia. A Braskem afirmou que o procedimento terá caráter estritamente financeiro e não incluirá compromissos com fornecedores, clientes e outros parceiros comerciais, que, segundo a empresa, continuam sendo cumpridos normalmente.

Dívida elevada contrasta com lucro no segundo trimestre

A decisão ocorre mesmo depois de uma melhora significativa nos resultados da petroquímica. No segundo trimestre de 2026, a Braskem registrou lucro líquido de aproximadamente R$ 3,3 bilhões e EBITDA consolidado de US$ 1,043 bilhão, equivalente a R$ 5,253 bilhões. A própria companhia atribuiu parte do desempenho à expansão temporária dos spreads de produtos químicos e petroquímicos no mercado internacional.

O endividamento, porém, continua sendo um dos principais desafios. Em 30 de junho, a dívida bruta corporativa estava em aproximadamente US$ 10,4 bilhões, enquanto a dívida líquida ajustada alcançava cerca de US$ 9,5 bilhões. A Braskem encerrou o trimestre com alavancagem corporativa de 6,74 vezes a relação entre dívida líquida e EBITDA. A empresa já vinha negociando com grupos de credores alternativas para reorganizar sua estrutura de capital.

Subsidiária no México também passa por reestruturação

A situação financeira da Braskem também envolve sua operação mexicana. A Braskem Idesa, joint venture controlada pela companhia em parceria com o Grupo Idesa, apresentou em agosto um pedido de proteção sob o Chapter 11 da legislação dos Estados Unidos. O plano busca reduzir a dívida sênior da subsidiária de cerca de US$ 2,5 bilhões para aproximadamente US$ 1,6 bilhão. Como parte da operação, a Braskem deverá aportar US$ 476 milhões e pretende continuar como acionista majoritária da empresa.

Outro componente relevante da trajetória recente da companhia é o caso da mineração de sal-gema em Maceió. A subsidência do solo levou à desocupação de áreas da capital alagoana e deu origem a acordos, ações judiciais e programas de compensação. Segundo a própria Braskem, até junho de 2026 haviam sido pagas 19.132 propostas de compensação financeira, com mais de R$ 4,2 bilhões desembolsados em compensações, auxílios temporários e honorários advocatícios. A companhia informou ainda que mantinha R$ 3,2 bilhões provisionados para obrigações relacionadas ao caso de Alagoas.

O que acontece agora

O foco da Braskem passa a ser a construção de um acordo capaz de reorganizar vencimentos e reduzir a pressão financeira sobre o caixa. A recuperação extrajudicial permite que a companhia continue negociando com credores dentro de um ambiente jurídico específico, mas a aprovação definitiva do plano dependerá do cumprimento das exigências previstas na legislação e da adesão necessária dos credores abrangidos.

A companhia também passou recentemente por mudanças em sua estrutura societária. O fundo Shine, administrado pela IG4 Capital, adquiriu a participação anteriormente vinculada à Novonor, em uma operação que transferiu cerca de 50,1% das ações com direito a voto. A Petrobras permanece como acionista relevante, com aproximadamente 47% do capital votante, dentro de uma nova configuração de governança compartilhada.

Apesar da dimensão da dívida, a recuperação extrajudicial não interrompe automaticamente as fábricas nem as vendas da Braskem. A questão central agora será saber se a petroquímica conseguirá transformar a recuperação recente de seus resultados operacionais em geração de caixa suficiente e, paralelamente, chegar a um acordo sustentável com seus principais credores.

Ouvir texto Pronto