Um grupo de bispos católicos brasileiros divulgou uma carta pública em que manifesta preocupação com o que classifica como avanço de um “conservadorismo autoritário” em setores ligados à Igreja e faz um apelo para que os eleitores realizem uma “escolha consciente e lúcida” nas eleições de 2026. Intitulado “Não deixemos cair a profecia”, o documento foi divulgado na sexta-feira (21) pelos chamados Bispos do Diálogo pelo Reino. A publicação da manifestação foi noticiada pela CartaCapital e por outros veículos nacionais.
No texto, o grupo afirma não possuir vinculação partidária e não apresenta apoio nominal a candidatos ou legendas. Os religiosos, porém, sustentam que a ausência de preferência partidária não significa, na visão deles, neutralidade diante de temas sociais e políticos considerados fundamentais. Entre as bandeiras mencionadas estão a defesa da democracia, da soberania nacional, das populações pobres e vulneráveis e do meio ambiente.
“Não temos partido, mas estamos do lado dos pobres, de quem os respeita e defende; de quem defende a democracia e a soberania do País”, afirma um trecho da carta.
Grupo condena manipulação política da religião
A manifestação também aborda diretamente a relação entre religião e política durante o período eleitoral. Segundo o documento, os bispos se posicionam contra o que denominam “qualquer postura fascista”, a “manipulação política da religião” e a circulação de mentiras e discursos de ódio nas plataformas digitais. As expressões são utilizadas pelos próprios autores da carta e não são direcionadas, no documento divulgado, a um candidato ou partido específico.
Ao tratar das eleições, os religiosos incentivam os cidadãos a analisar o compromisso dos candidatos com aquilo que definem como causas populares, bem comum e proteção da chamada “Casa Comum”, expressão utilizada pela Igreja Católica em discussões relacionadas à preservação ambiental. A carta surge durante a campanha eleitoral de 2026, quando estão em disputa a Presidência da República, governos estaduais e vagas no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas.
O documento dos Bispos do Diálogo pelo Reino não deve ser confundido com uma manifestação institucional de todo o episcopado brasileiro ou da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A carta é uma iniciativa do grupo, embora faça referência às Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora e à “Mensagem ao Povo Brasileiro” aprovada durante a 62ª Assembleia Geral da CNBB. No documento oficial divulgado pela Conferência em abril, os bispos brasileiros também mencionaram, entre outros temas, a valorização da soberania, da democracia, da cidadania e a responsabilidade com os mais pobres.
Carta critica setores da própria Igreja
Parte da manifestação é dedicada a divergências internas no ambiente católico. Os autores afirmam que integrantes de setores religiosos, inclusive membros de ministérios ordenados, religiosos e leigos, estariam utilizando redes sociais e meios de comunicação de inspiração católica para promover, segundo a avaliação apresentada na carta, discursos agressivos contra pessoas envolvidas na defesa dos pobres, da democracia e de pautas ambientais. É nesse contexto que o documento emprega a expressão “conservadorismo autoritário”.
Os bispos afirmam ainda que ataques virtuais têm atingido integrantes do episcopado, padres, diáconos, religiosos e leigos. Segundo os signatários, determinadas manifestações procuram “desqualificar, silenciar” ou intimidar integrantes da Igreja. A carta, entretanto, não identifica individualmente os responsáveis por essas condutas, razão pela qual as afirmações devem ser compreendidas como a avaliação e o posicionamento dos autores do documento.
Inteligência artificial também entra no debate
A manifestação cita ainda a encíclica “Magnifica Humanitas”, primeira encíclica do papa Leão XIV, dedicada à proteção da pessoa humana diante dos avanços da inteligência artificial e das transformações tecnológicas. O documento pontifício foi assinado em 15 de maio de 2026 e publicado oficialmente pelo Vaticano em 25 de maio. Nele, Leão XIV aborda os impactos da digitalização, da inteligência artificial e da robótica e sustenta que a tecnologia deve estar subordinada à dignidade humana e ao bem comum.
Na carta brasileira, essas reflexões são relacionadas ao funcionamento das redes sociais, à criação de ambientes digitais fechados e à disseminação de discursos considerados violentos. Os Bispos do Diálogo pelo Reino defendem que a atuação religiosa não fique limitada aos templos e sustentam que questões como desigualdade social, condições de trabalho, preservação ambiental e proteção de grupos vulneráveis também fazem parte da dimensão social da evangelização.
O grupo já havia se manifestado durante a campanha eleitoral de 2022. Agora, em 2026, volta ao debate público afirmando que pretende defender aquilo que define como compromisso com “a vida, a democracia, a soberania e a defesa da casa comum”, ao mesmo tempo em que rejeita a vinculação formal da Igreja a partidos políticos.




