Uma ampla auditoria determinada pelo governador interino do Rio de Janeiro, Ricardo Couto, colocou sob análise contratos, pagamentos e despesas de secretarias, autarquias, fundações e empresas vinculadas ao Estado. O pente-fino foi formalmente determinado em abril, quando o governo estabeleceu que os órgãos apresentassem informações sobre suas atividades e despesas, com participação da Casa Civil e da Controladoria-Geral do Estado.
Informações que circulam entre interlocutores que acompanham o trabalho apontam para achados considerados graves, entre eles suspeitas de contratos com valores acima dos parâmetros esperados, pagamentos de faturas sem documentação suficiente para demonstrar a execução dos serviços, existência de servidores que receberiam sem exercer efetivamente suas funções, além de questionamentos sobre programas sociais e contratações públicas. Esses pontos, entretanto, precisam ser individualizados e comprovados documentalmente no relatório final antes que possam ser tratados como irregularidades definitivamente constatadas ou crimes.
A estimativa preliminar mencionada nos bastidores é de que práticas consideradas irregulares ou de difícil justificativa poderiam representar impacto de cerca de R$ 8 bilhões por ano aos cofres estaduais. A cifra é expressiva: a Lei Orçamentária Anual de 2026 prevê receita líquida de aproximadamente R$ 107,6 bilhões para os Orçamentos Fiscal e da Seguridade Social, o que faria R$ 8 bilhões corresponderem a cerca de 7,4% desse montante.
O valor de R$ 8 bilhões, porém, deve ser tratado neste momento como estimativa atribuída a informações preliminares da auditoria, e não como prejuízo definitivamente comprovado. Até a divulgação integral do relatório, não é possível afirmar que todo o montante corresponda a desvio, superfaturamento ou dano efetivo ao erário. A eventual caracterização de crimes ou atos de improbidade depende ainda da análise individual das operações, do contraditório dos responsáveis e, quando for o caso, da atuação dos órgãos de controle, Ministério Público e Poder Judiciário.
Parte do trabalho de revisão do governo já produziu desdobramentos concretos. Em agosto, uma auditoria sobre contratos da Secretaria Estadual de Cidades identificou possíveis irregularidades e teve informações encaminhadas à Procuradoria-Geral da República após envolver agentes com prerrogativa de foro. Entre os pontos examinados estava um aditivo de 45,4% em um contrato inicialmente estimado em R$ 99,7 milhões. Os citados naquele caso negaram irregularidades.
Também foram divulgados levantamentos sobre cargos de confiança que teriam resultado na exoneração de milhares de funcionários apontados como sem exercício efetivo, embora os números e as situações individuais igualmente dependam da documentação administrativa correspondente. A extensão das auditorias indica que o governo interino pretende fazer uma revisão ampla da estrutura herdada e dos contratos estaduais.
Nos bastidores, a dimensão das despesas analisadas tem provocado comentários sobre a relação histórica entre cargos, contratos e demandas políticas. Um interlocutor citado em relato sobre a auditoria chegou a ironizar que seria mais barato entregar R$ 5 milhões a cada um dos 70 deputados estaduais R$ 350 milhões do que suportar uma perda anual estimada em bilhões. A declaração, evidentemente, é uma comparação retórica e não indica pagamento, proposta ou repasse efetivamente realizado a parlamentares.
A expectativa agora recai sobre a publicação do relatório final da auditoria, documento que deverá permitir identificar quais contratos foram questionados, os valores envolvidos, os órgãos responsáveis, as evidências encontradas e as providências administrativas ou judiciais eventualmente adotadas. Somente com a apresentação dessas peças será possível dimensionar, com segurança, quanto das suspeitas preliminares representa efetivamente irregularidade, desperdício de recursos públicos ou possível dano ao patrimônio do Estado.




