João Gilberto Codognotto, conhecido como “Barão do Café” e apontado como amigo do ex-atleta Robinho no período em que passaram por Tremembé, entrou no radar da Polícia Federal na Operação Exchange. Ele ficou quatro noites na Superintendência da PF, na zona oeste de São Paulo, após ser preso em 3 de julho, e foi solto no dia 7.
A PF aponta Codognotto como um dos operadores financeiros de Victor Shimada, empresário sancionado pelos Estados Unidos por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Shimada, principal alvo da operação, segue foragido.
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos sancionou, em 1º de julho, Victor Shimada, Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira e empresas ligadas ao grupo, entre elas Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda, Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda, Wave Construções Inteligentes Ltda e a portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal Ltda.
A medida americana antecipou a ação da PF. Os mandados de busca e apreensão já tinham sido emitidos, mas os investigadores aguardavam o melhor momento para capturar os alvos. Na deflagração, os agentes não encontraram Shimada, o tio dele, Amauri de Oliveira, nem Ygor Saviolli, que teve o celular apreendido nos Estados Unidos.
Conversas e transferências sob análise da PF
Documentos da PF apontam que a JGC Intermediação de Negócios Eireli, empresa de Codognotto, recebeu dinheiro de Victor Shimada por meio de uma chave Pix com as iniciais de João Gilberto Codognotto. Os investigadores também interceptaram mensagens entre os dois sobre operações financeiras no Brasil e no exterior.
Em uma das conversas, Codognotto pergunta a Shimada se poderia receber dinheiro em Assunção, capital do Paraguai, e afirma que conseguiria depositar o equivalente a US$ 50 mil em guaranis. Em outra troca de mensagens, ele pede uma transferência aos Estados Unidos, envia dados de uma conta da empresa Raízen e solicita R$ 120 mil.
A PF suspeita de que a Raízen tenha sido usada como empresa de fachada ou para a “triangulação de valores” com o objetivo de “dissimular a origem e o destino dos recursos movimentados”. A companhia negou relação com os fatos: “A Raízen esclarece que não tem qualquer relação com os fatos investigados no âmbito da operação Exchange e já adotou as medidas judiciais cabíveis para o esclarecimento dos fatos”.
Os investigadores ainda afirmam que Codognotto apresentou a Shimada um potencial cliente que atuaria como doleiro para um terceiro interessado em receber 1 bilhão de pesos argentinos, no Brasil, em reais.
Prisão anterior e convivência com Robinho em Tremembé
Codognotto já havia sido preso no segundo semestre de 2024 em uma investigação sobre lavagem de dinheiro para o PCC. A operação mirava um sistema criminoso atribuído ao traficante Roland Ronald, acusado pelo Ministério Público Federal de atuar como elo entre a facção brasileira e organizações internacionais.
Entre essas organizações estavam as Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (Farc), que, conforme a acusação do MPF, usavam a logística elaborada por Ronald para transportar cocaína a cartéis mexicanos.
Em uma passagem por Tremembé, Codognotto encontrou Robinho, condenado pelo estupro coletivo de uma jovem albanesa em uma boate em Milão. O jornalista Ulisses Campbell narra a relação entre os dois no livro “Tremembé: o presídio dos famosos” e identifica Codognotto como empresário do ramo do café.
A amizade com Robinho, segundo o livro, vinha do período em que os dois foram vizinhos em um condomínio de luxo no Guarujá, no litoral paulista. Codognotto já deixou a prisão duas vezes desde então; Robinho saiu de Tremembé, mas segue preso no Centro de Ressocialização de Limeira.