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Como Brexit abalou estabilidade política do Reino Unido: 7 premiês em 10 anos

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Como Brexit abalou estabilidade política do Reino Unido: 7 premiês em 10 anos

Andy Burnham tomou posse como primeiro-ministro do Reino Unido na segunda-feira (20), poucas semanas depois de o referendo do Brexit completar dez anos. O país chega ao sétimo premiê desde a votação de 2016, período marcado por sucessivas crises de governo e perda de popularidade de líderes conservadores e trabalhistas.

O Brexit começou no referendo de 23 de junho de 2016, quando 51,9% dos britânicos votaram pela saída da União Europeia. O governo acionou o Artigo 50 do Tratado da União Europeia em março de 2017, abriu a negociação da retirada e deixou formalmente o bloco em 31 de janeiro de 2020, antes do fim do período de transição em 31 de dezembro daquele ano.

Para Kai Enno Lehmann, professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo, o principal legado econômico da saída da União Europeia é a estagnação prolongada da economia britânica. O Reino Unido deixou de integrar um mercado único de cerca de 500 milhões de consumidores e passou a depender de um mercado interno de aproximadamente 68 milhões de pessoas.

Lehmann afirma que as novas barreiras regulatórias e comerciais dificultaram o acesso ao principal destino das exportações britânicas e afetaram crescimento, salários, inflação e confiança de investidores. “O Brexit enfraqueceu a própria união do Reino Unido. Hoje existe uma divisão entre a Irlanda do Norte, que continua integrada ao mercado único europeu em vários aspectos, e o restante da Grã-Bretanha”, disse.

Troca de premiês expõe crise de popularidade no sistema britânico

O professor Eduardo Mello, da Fundação Getúlio Vargas, avalia que o desenho político britânico favorece quedas rápidas quando o chefe de governo perde apoio dentro do próprio partido. “O primeiro-ministro tem muito poder. Ele sempre tem maioria no parlamento, e tem muita capacidade de passar legislações, desde que o seu próprio partido não se volte contra ele. Ou seja, desde que ele não perca popularidade”, afirmou.

No Reino Unido, a população não elege diretamente o primeiro-ministro. Os eleitores escolhem os deputados da Câmara dos Comuns, e o partido capaz de formar maioria indica o líder que o rei convida para assumir o governo; quando um premiê renuncia durante o mandato, como ocorreu com Keir Starmer, a própria legenda governista escolhe um substituto sem nova eleição geral.

David Cameron deixou o cargo após defender a permanência na União Europeia e perder o referendo; Theresa May fracassou ao tentar aprovar seu acordo com Bruxelas; Boris Johnson aprovou a retirada, mas caiu depois do escândalo Partygate; Liz Truss renunciou após 45 dias de turbulência nos mercados; Rishi Sunak perdeu as eleições de 2024 para o Partido Trabalhista; e Starmer saiu em 2026 depois de perder apoio político.

Burnham, ex-ministro e ex-prefeito da Grande Manchester, assumiu prometendo renovar a comunicação do governo e enfrentar a crise do custo de vida. Ele herda produtividade baixa, dificuldades comerciais com a União Europeia, avanço do Reform UK e pressão por uma estratégia para a relação com o bloco, tema que Lehmann chamou de “o elefante na sala” da política britânica.

Mello afirma que o novo premiê chega ao poder sem ter submetido seu programa diretamente aos eleitores. “O Burnham não tem um projeto. Ele não prometeu nada para ninguém. Vai ser muito difícil ele fazer qualquer mudança estrutural sem isso”, disse.

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