Traficantes e membros de torcida organizada: os brasileiros que lutam na guerra da Ucrânia

POR MAGIDE VIEIRA, mestranda em Relações Internacionais pela UERJ
A guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, ganhou uma nova dimensão no debate público brasileiro ao longo do primeiro semestre de 2026. Uma sequência de reportagens, investigações jornalísticas e dados divulgados pelo Itamaraty passou a revelar não apenas o aumento do número de brasileiros mortos ou desaparecidos no conflito, mas também mudanças no perfil daqueles que vêm sendo recrutados para atuar nas linhas de frente.
O cenário expõe uma combinação de precariedade social, propaganda digital e violência extrema que transformou o Brasil em uma fonte constante de combatentes estrangeiros para a guerra. Esta guerra que já se estende há 4 anos, enfrenta baixas em soldados nacionais, especialmente a ucrânia, país invadido pela Rússia, no qual muitos homens se refugiaram.
E na falta de soldados nacionais, um novo interesse: os mercenários de regiões mais pobres do planeta.
Em janeiro de 2026, o Ministério das Relações Exteriores apontou que ao menos 17 brasileiros haviam morrido no conflito e outros 42 estavam desaparecidos. Poucos meses depois, os números se agravariam significativamente. Em maio, os dados oficiais indicavam 31 mortos e 67 desaparecidos, demonstrando a velocidade com que a participação brasileira no fronte vinha crescendo.
Entre os casos que mais repercutiram está o de Igor Amazonas, estudante de Direito da USP, de 23 anos, que deixou o Brasil entre maio e junho de 2025 para se juntar às forças ucranianas. Sem nenhuma experiência militar, Igor foi enviado para fronte, e como escudo humano morreu e seu corpo nunca foi recuperado, permanecendo até hoje na lista de desaparecidos da embaixada brasileira em Kiev.
A trajetória do jovem passou a simbolizar uma geração atraída por discursos idealizados sobre heroísmo, liberdade e transformação pessoal.
Outro episódio que gerou forte repercussão ocorreu em fevereiro de 2026, quando o SBT News revelou a morte de Bruno Gabriel Leal da Silva, de 24 anos. Diferentemente de outras baixas registradas no conflito, Bruno teria morrido após uma sessão de tortura pelo seu próprio batalhão, e veio a óbito após um espancamento coletivo dentro de sua base militar.
A violência teria sido autorizada por um comandante também brasileiro identificado como Leanderson Paulino. O caso trouxe à tona denúncias sobre abusos internos nas unidades estrangeiras, incluindo relatos de coerção, retenção de documentos e controle violento dos combatentes.
Em maio de 2026, o programa Domingo Espetacular, da Record, exibiu entrevistas com ex-integrantes do tráfico de drogas do Rio de Janeiro que trocaram a atuação em facções pela guerra no Leste Europeu.
Identificados pelos codinomes “G-S”, “Mestre” e “Predador”, eles relataram ter visto no conflito uma possibilidade de fuga da violência cotidiana das comunidades cariocas, além da promessa de dinheiro, estabilidade e uma nova vida fora do Brasil.
Nesse contexto, símbolos culturais brasileiros passaram a desempenhar um papel inesperado no processo de recrutamento. Em abril de 2026, combatentes apareceram posando com a bandeira da Torcida Jovem do Flamengo. Esse tipo de foto é uma propaganda voltados para brasileiros que acreditam na violência das campanhas de mercenário como uma saída.
O uso desses elementos funciona como uma espécie de ponte emocional, aproximando a guerra de universos familiares ligados ao futebol, à masculinidade, a violência e ao pertencimento coletivo das torcidas organizadas, que também acontece nos exércitos.
Grande parte do recrutamento ocorre por meio de campanhas online e plataformas como o site joinuarmy.org, que possui páginas direcionadas especificamente ao público brasileiro. A propaganda enfatiza ideias como “defesa da liberdade” e “missão internacional”, frequentemente omitindo as condições reais do conflito. Os contratos oferecidos costumam durar seis meses e prometem salários entre R$ 7 mil e R$ 8 mil mensais, além de alojamento e alimentação.
🚨 VEJA l Brasileiros voluntários na guerra da Ucrânia surgem em vídeo cantando e chamam atenção pic.twitter.com/B8mudOjfnF
— Notícias Paralelas (@NP__Oficial) May 18, 2026
No entanto, os relatos de quem esteve no fronte descrevem uma realidade completamente diferente da narrativa heroica divulgada nas redes. Soldados brasileiros afirmam que os drones se tornaram a principal ameaça da guerra, tornando o conflito mais letal do que qualquer experiência de violência urbana conhecida por eles no Brasil.
Muitos descrevem o fronte como um “verdadeiro inferno”, marcado por ataques constantes, mortes rápidas e sensação permanente de abandono.
A participação de brasileiros em conflitos estrangeiros permanece em uma zona jurídica ambígua. Embora o alistamento ocorra formalmente de maneira voluntária, organismos internacionais como a ONU alertam para os riscos do mercenarismo e defendem a criminalização dessas práticas por comprometerem a proteção da vida humana.
Nesse cenário, o Brasil aparece menos como um ator político do conflito e mais como fornecedor periférico de combatentes para uma disputa estratégica travada entre potências. Ou seja, enquanto país estamos falhando em proteger as peças mais frágeis do tabuleiro.
O crescimento desse fluxo de mercenários revela a fragilidades internas da sociedade brasileira que já possui na sua jurisprudência o entendimento contrário a autodestruição, contudo ainda permite o alistamento em um exército estrangeiro.
Jovens em busca de pertencimento, renda, reconhecimento ou simplesmente organizar seu desejo pela violência, acabam sendo incorporados a uma engrenagem militar transnacional que transforma vulnerabilidade social em corpos descartáveis para a guerra. Porque sem dúvida nenhuma o valor da vida do soldado nacional e do mercenário brasileiros são distintos.
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