Um atraso de três meses nos repasses da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo ao CAISM Vila Mariana já compromete a compra de medicamentos e insumos, além de serviços de ambulância, limpeza e segurança da unidade de saúde mental. O centro funciona na zona sul da capital e atende milhares de pacientes por mês.
O governo do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) deveria transferir R$ 1,6 milhão mensais ao Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental. O CAISM reúne pronto-socorro psiquiátrico, ambulatórios especializados, hospital-dia e unidades de internação, com cerca de 5.000 atendimentos ambulatoriais mensais.
Jair Mari, professor titular do Departamento de Psiquiatria da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, afirmou que os trabalhadores mantêm os atendimentos apesar das dificuldades. “Não fechamos porque temos o compromisso com a assistência à população. Os profissionais estão estressados, cansados e desmotivados”, disse.
Mari questionou as condições para manter o serviço sem recursos regulares. “Como atender no limite da limpeza, da segurança, com falta de medicamentos e às vezes tirando dinheiro do bolso para pagar comida para paciente?”, afirmou o professor.
Renovação do convênio travou após prazo contratual
O CAISM Vila Mariana opera desde março de 2018 por meio de convênio entre a Secretaria da Saúde, a Unifesp e a SPDM, Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina. Antes, a Santa Casa de Misericórdia administrava a unidade.
Segundo Mari, a secretaria enviou o contrato sete dias após o prazo, o que impediu a assinatura eletrônica da reitora da Unifesp. Como o prazo final já havia vencido, o Estado precisou elaborar um novo contrato e submetê-lo novamente às instâncias administrativas.
A Secretaria da Saúde declarou que regularizaria o repasse naquela semana e sustentou que o CAISM segue em funcionamento, sem interrupção dos atendimentos. A pasta também afirmou que transferências de dinheiro público exigem requisitos técnicos, jurídicos, financeiros e de prestação de contas previstos em lei.
Uma psicóloga da unidade relatou que a falta de recursos ameaça o fornecimento de Haldol Decanoato, antipsicótico aplicado no próprio CAISM. A verba também põe em risco a coleta de sangue realizada duas vezes por semana, necessária para acompanhar pacientes e iniciar medicamentos usados em quadros graves.
O psiquiatra Kalil Bueno Abdalla, chefe de plantão do pronto-socorro, disse que pacientes que precisam permanecer internados por mais de 48 horas devem ser transferidos. “Sem ambulâncias, estamos de mãos atadas”, afirmou. Sem veículo disponível, a equipe precisa acionar o Samu para levar pacientes com emergências clínicas a hospitais gerais.