A convenção que lançou o governador Tarcísio de Freitas à reeleição hoje, em São Paulo, tentou convencer o eleitorado de que o bolsonarismo respeita as mulheres. Mais do que isso: que não maltrata, nem humilha, após a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ter acusado o enteado exatamente disso, reforçando a desconfiança desse público com Flávio e seus aliados,
Teve o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), defendendo as mulheres; o presidente do Republicanos, deputado federal Marcos Pereira, fazendo uma homenagem a elas; e o próprio Tarcísio declarando-se à esposa.
Mas, se “mulheres não são cotas, mulheres são essenciais”, como disse Pereira, por que a mais importante participação de uma mulher no evento foi a da bispa Sônia Hernandes, fazendo um louvor e cantando em homenagem a Tarcísio?
Se as mulheres são tão importantes, por que várias delas não foram convidadas a falar sobre política? Por que só há homens candidatos ao Senado nesse grupo político em São Paulo?
Flávio enfrenta uma rejeição muito maior que a de Lula entre o público feminino, mas parece não entender a razão. Disse ele ontem, inconformado:
“Não dá para compreender como é que as pesquisas mostram, por exemplo, que as mulheres estão votando mais lá [Lula] do que aqui. As pautas das mulheres são as pautas que nós defendemos. E é uma briga que a gente tem na direita isso, né? Porque parece que quem defende as mulheres está defendendo a pauta errada”.
O fato de as mulheres terem um papel secundário, sendo objeto de discurso e não dele, talvez ajude a explicar ao senador a situação.
Mesmo com a presença de nomes fortes da direita na política no evento, como a senadora Damares Alves (Republicanos), que foi ministra do governo Bolsonaro junto de Tarcísio, e a presidente do Podemos, Renata Abreu, foi delegado a elas mais o papel de espectadoras do que de protagonistas.
A convenção reforçou exatamente aquilo que tentava negar. As mulheres foram lembradas, elogiadas, homenageadas e agradecidas. Mas, na hora de distribuir o microfone, formular estratégias, ocupar o centro do palco e projetar o futuro do grupo político, quem decidiu e teve o centro dos holofotes foram, mais uma vez, os homens.
Como em um 8 de março, em que mulheres ganham flores quando o que mais querem é que não calemos sua voz.
Parte do bolsonarismo diz não entender por que eleitoras preferem votar em outro campo político. Não que o outro lado não esteja devendo em representatividade nos palácios, parlamentos e tribunais. Mas, por aqui, a questão parece preocupar a cada quatro anos. Talvez a resposta a isso não esteja nas pesquisas, mas no espelho do próprio palanque.
Michelle deve estar rindo em Brasília.




