Por Leonardo Sakamoto no Uol
Uma pré-campanha presidencial deveria funcionar como a antessala da entrevista de emprego: o candidato começa a explicar o que pretende fazer diante dos problemas do país e o eleitor decide se lhe entrega as chaves do Palácio do Planalto. Flávio Bolsonaro, porém, parece disputar outra vaga. Quer voltar a ser advogado particular do pai, mas pago com dinheiro público e instalado na Presidência da República.
Enquanto milhões de brasileiros esperam meses por consultas, exames e cirurgias no serviço público de saúde, o senador continua tratando como emergência nacional a situação judicial de Jair Bolsonaro. Trabalhadores tentam sobreviver à rotina pesada que lhes toma seis dias por semana sem tempo para descansar, ver os filhos, fazer um curso, e ele transforma a anistia dos condenados pela tentativa de golpe em prioridade nacional.
Pesquisa Genial/Quaest mostra que 69% dos eleitores apoiam o fim da escala 6×1, contra apenas 22% que rejeitam a mudança. Entre os entrevistados, 53% pretendem descansar e passar mais tempo com a família, caso a medida seja aprovada. Outros 13% dizem que vão buscar trabalho ou fazer hora extra para aumentar a renda, 12 % querem cursos e estudar, 9%, ir mais à igreja e a cerimônias religiosas, 6% vão passear, ir bares, restaurantes e festas e 4%, viajar.
A proposta, que foi aprovada pela Câmara por esmagadora maioria, está parada no Senado Federal por falta de vontade política do presidente Davi Alcolumbre. Enquanto isso, o grupo de Flávio Bolsonaro tenta emplacar a PEC da Hora Trabalhada, que vai no sentido contrário, e vem sendo chamada pela base governista como PEC do Patrão ou PEC do Fim do Descanso.
A saúde pública, por sua vez, aparece numericamente como o principal problema do Brasil para 21% dos entrevistados pelo Datafolha. Não é difícil entender: para quem aguarda um especialista, a fila não é uma abstração estatística, mas um calendário de angústia. O Sistema Único de Saúde é uma construção civilizatória e que precisa ser defendida diante da sanha dos que querem trocar cirurgia, vacina e ambulância gratuitos por vouchers e o “cada um por si e Deus por todos” que os EUA já provaram que não funciona.
Flávio segue sua caminhada presidencial anunciando a defesa do pai como prioridade. O que, ao menos, é coerente: sua candidatura não nasceu de um projeto nacional, mas da necessidade familiar de recuperar o poder necessário para aliviar a situação do patriarca, condenado a mais de 27 anos pela trama golpista e atualmente em prisão domiciliar por benefício de caráter humanitária devido ao seu quadro de saúde. Diante disso, ele se indigna mais com a proibição de visitar o pai após desrespeitar uma ordem judicial do que com a epidemia de burnout em que vivemos.
Quando a sua candidatura foi lançada, o objetivo não era ganhar a eleição, mas tirar o pai da cadeia e manter o controle sobre a direita no Brasil. Com a ascensão rápida nas pesquisas, rivalizando diretamente com Lula, a situação mudou. Agora, após escândalos como os R$ 61 milhões doados a ele pelo “irmão” Daniel Vorcaro, do Banco Master, as acusações de que é cúmplice do tarifaço de Donald Trump contra o Brasil e o vídeo-bomba de Michelle Bolsonaro acusando-o de tê-la maltratado e humilhado, a campanha tem se voltado ao público mais fiel e aos objetivos do início.
Não que ele não possa ganhar, continua favorito ao lado do petista. Mas está buscando as pautas do bolsonarismo-raiz, que o mantém vivo na corrida eleitoral em um momento em que parte da direita tenta construir uma alternativa mais viável a ele. Com isso, ignora o que importa realmente à maioria do país.
Flávio tem todo o direito de amar e defender o pai. O que não pode é exigir que mais de 200 milhões de brasileiros transformem o drama criminal da família Bolsonaro no principal problema da República. O eleitor quer sair da fila do hospital e ter tempo para viver. Flávio quer tirar o pai da cadeia. Se não perceber a diferença, corre o risco de descobrir nas urnas que o Brasil não é uma extensão da sala de visitas do condomínio de luxo onde Jair passa os dias.
O mais surpreendente é que parte da direita e do centrão sabe que pode caminhar com ele para o buraco dessa forma. Ainda assim, prefere afundar abraçada ao sobrenome Bolsonaro a oferecer um projeto de país. Exemplo disso é que uma das primeiras promessas feitas por outros pré-candidatos à direita foi exatamente a de lutar pela anistia se eleitos, antes de qualquer outra coisa que realmente faça a diferença no povão. Eleição se ganha com esperança de futuro, não com saudade do poder nem com habeas corpus.




