Um relatório de inteligência da Polícia Federal utilizado na investigação envolvendo o blogueiro maranhense Luís Pablo não aponta indícios de que o jornalista tenha praticado o crime de violação de sigilo funcional e afirma não ser possível concluir, “com máxima certeza”, que ele tenha recebido dinheiro para produzir reportagens contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino. O conteúdo do documento foi revelado nesta quarta-feira (19) pela coluna de Malu Gaspar, de O Globo, e repercutido por outros veículos.
A conclusão da PF, entretanto, não encerra a investigação nem significa que todas as suspeitas levantadas no procedimento tenham sido descartadas. Ao autorizar diligências no caso, o ministro Alexandre de Moraes registrou a existência de indícios considerados relevantes de uma possível prática de perseguição contra Dino. A Procuradoria-Geral da República (PGR) também se manifestou favoravelmente às medidas investigativas. O caso envolve suspeitas relacionadas ao fornecimento de informações sobre a rotina e a segurança do ministro e de familiares.
Luís Pablo mantém um blog dedicado principalmente à política do Maranhão e publicou, desde novembro de 2025, reportagens questionando o uso de veículos oficiais do Tribunal de Justiça do Maranhão por Dino e integrantes de sua família. O ministro sustenta que não houve utilização irregular dos automóveis. Em março, uma operação autorizada por Moraes resultou na apreensão de dois celulares, um notebook e um pen drive do blogueiro. A análise desses equipamentos permitiu à PF identificar o ex-secretário Raimundo Cutrim como uma das fontes das informações publicadas.
PF diferencia jornalista de eventual conduta da fonte
Um dos trechos considerados centrais do relatório é a diferenciação feita pelo delegado Alberto Knoll entre a atuação do profissional de imprensa e uma eventual conduta irregular praticada por quem tivesse acesso a informações restritas. Segundo o delegado, não se tratava de imputar ao jornalista o crime de violação de sigilo funcional, uma vez que sua atividade estaria, em tese, protegida pela liberdade de imprensa reconhecida pelos tribunais.
Em relação à fonte, o relatório registra entendimento diferente: caso um agente público tenha acessado informações protegidas em razão do cargo e as divulgado irregularmente, a conduta poderá, dependendo da comprovação dos fatos, ser analisada sob o artigo 325 do Código Penal, que trata da violação de sigilo funcional. A afirmação não representa condenação de Raimundo Cutrim nem conclusão definitiva sobre a ocorrência do crime, que permanece sujeita à apuração.
As mensagens analisadas mostram que Cutrim encaminhava documentos e imagens a Luís Pablo por WhatsApp e que os dois chegaram a se encontrar pessoalmente. A PF descreveu o blogueiro como alguém de postura política contrária a Dino e responsável por publicações críticas ao ministro. O relatório, contudo, não equipara essa linha editorial, por si só, à violação de sigilo funcional. Luís Pablo também nega ter perseguido ou monitorado Dino e afirma que houve violação de seu direito ao sigilo da fonte.
Transferência de R$ 100 mil é analisada
Outro ponto examinado pela Polícia Federal envolve o advogado Diogo Lima, ex-secretário de Habitação de São Luís. Segundo o relatório, foram encontradas conversas nas quais Luís Pablo encaminhava ao advogado reportagens críticas a Dino e recebia comentários e sugestões sobre os textos. Também apareceu no material uma transferência de R$ 100 mil realizada por Lima para Danilo Cutrim Bezerra, que havia vendido um imóvel rural ao blogueiro.
De acordo com a investigação, o terreno foi negociado por R$ 461 mil, e o pagamento teria sido realizado por meio de depósitos provenientes de diferentes pessoas, entre elas Diogo Lima. A PF registrou, porém, que não conseguiu estabelecer eventual parentesco entre Danilo Cutrim Bezerra e Raimundo Cutrim e tampouco concluiu que os R$ 100 mil correspondessem a pagamento pela produção de reportagens contra Flávio Dino. Luís Pablo afirma que o valor foi um empréstimo pessoal destinado à aquisição do imóvel e nega relação entre o dinheiro e seu trabalho jornalístico.
O material apreendido também continha notas fiscais do Blog Luís Pablo relacionadas à Assembleia Legislativa do Maranhão, em valores entre R$ 12 mil e R$ 17,5 mil. Questionado sobre os pagamentos, o blogueiro afirmou que eles se referiam à veiculação de publicidade institucional por meio de banners e que outros veículos de comunicação também participavam desse tipo de contratação. Até o momento, as informações divulgadas sobre o relatório não indicam que esses pagamentos tenham sido classificados pela PF como prova de financiamento de reportagens contra Dino.
A investigação, portanto, permanece aberta e reúne questões distintas. De um lado, Moraes apontou elementos que, em sua avaliação e na manifestação da PGR, justificaram a continuidade das diligências sobre possível perseguição e riscos à segurança de Dino. De outro, o relatório policial divulgado nesta quarta-feira estabelece limites importantes sobre o que foi efetivamente constatado até agora, especialmente ao não atribuir ao jornalista o crime de violação de sigilo funcional e ao não concluir que pagamentos identificados tenham servido como remuneração pelas reportagens.




