A volta do imperativo da magreza extrema está estampada nos corpos esqueléticos de várias celebridades — embora as mulheres reais dificilmente alcancem esse padrão estúpido.
Em aparição pública, Ariana Grande, cuja magreza aparenta uma doença terminal, gerou debates sobre transtornos alimentares — de fato, uma questão de saúde pública na pós-modernidade.
A atriz e cantora estadunidense tem aparecido cada vez mais magra na mídia e reforça uma ideia que favorece os transtornos alimentares só por existir. Claramente doente, declarou que era menos saudável antes de emagrecer, porque bebia álcool, se alimentava mal e usava medicamentos.
Quer dizer: em uma sociedade que vende magreza como saúde e bem-estar, uma cantora megapopular influencia jovens a serem cada vez mais magros, custe o que custar.
Não há outro resultado possível: os transtornos alimentares entre jovens têm aumentado substancialmente.
Ao veicular um clipe da cantora, o próprio Instagram emitiu um alerta à comunidade, oferecendo apoio e ajuda a quem luta contra distúrbios alimentares — essa é a gravidade da situação.
Os comentários entre celebridades têm sido cada vez mais críticos. A atriz britânica Jameela Jamil foi assertiva e viralizou ao afirmar que a imagem de Ariana era “profundamente prejudicial” para jovens fãs e que a equipe dela era “irresponsável”. “Essa pobre mulher possivelmente está morrendo bem na nossa frente”, completou.
Sim. Mulheres morrem em mesas de cirurgia, deformam-se em procedimentos invasivos, usam canetinhas de emagrecimento, fazem dietas tão restritivas que desenvolvem transtornos como anorexia e bulimia para corresponderem a um padrão irreal e, atualmente, digital — a moda agora é fazer cirurgia estética com base em filtros do Instagram. Pasmem.
Se o maior problema fosse este, no entanto, debates e campanhas bastariam.
Mas não estamos falando “apenas” de transtornos alimentares; estamos falando de um projeto de controle do corpo feminino.
O imperativo da magreza extrema não vem sozinho: voltaram as esposas-troféu, a ideia de subserviência feminina — defendida, inclusive, por muitas mulheres —, o acirramento do debate sobre o aborto legal e até retrocessos políticos reais, em um país onde já se afirmou que “mulheres não sabem votar”.
Induzir mulheres a passarem fome para serem magras e frágeis não é só uma moda; é uma maneira de enfraquecer e controlar nossos corpos, do mesmo modo que o mito da domesticidade mantinha as mulheres cativas no ambiente doméstico.
Para além disso, há o óbvio: magreza é uma questão de classe. Mulheres magras são consideradas “elegantes”; são as que têm dinheiro para nutricionista, academia e Mounjaro; as que têm tempo e recursos para se alimentar bem.
É por isso que ser magra custa tanto: nossa saúde física e mental, nosso bem-estar, nossa felicidade, nossa vida.
Nunca é demais lembrar: o capitalismo está em crise, e nossos corpos são frequentemente espólios de guerra ou máquinas reprodutivas.
A magreza de Ariana Grande não é uma escolha a ser criticada ou apoiada; é sintoma de uma sociedade adoecida por um projeto de controle sistêmico do corpo feminino.
As mulheres esqueléticas, as anoréxicas e as portadoras de qualquer transtorno alimentar são vítimas não apenas da indústria da beleza, mas da ideia patriarcal de que precisamos ser frágeis para que sejamos facilmente domáveis. E isso, é claro, passa pelo discurso: um discurso que disfarça a perseguição doentia a um padrão de beleza, apresentando-a como prática de saúde.
Não há saúde em se submeter a procedimentos e dietas potencialmente nocivos, pesar a própria comida ou deixar de nutrir o próprio corpo para ser magra. Definitivamente, não é uma questão de saúde: é um delírio narcísico que simultaneamente sustenta e se apoia em um plano de dominação do corpo feminino.
Ossos à mostra, laços na cabeça, bolos às três da tarde, esposas-troféu: o que eles querem com tudo isso é nos escravizar mais uma vez.




