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Produtora de filme de Bolsonaro é ligada a contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de SP, segundo apuração do Intercept.

Por 8 min de leitura Expresso Rio
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Imagem: Reprodução
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A produtora executiva ligada ao filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, aparece no centro de uma apuração que envolve um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de internet Wi-Fi em comunidades de baixa renda.

Segundo reportagem do Intercept Brasil, Karina Ferreira da Gama, apontada como produtora executiva do longa, também preside o Instituto Conhecer Brasil, organização contratada pela gestão Ricardo Nunes para executar o programa de conectividade.

De acordo com a apuração, o contrato previa a instalação de 5 mil pontos de Wi-Fi na capital paulista. No entanto, até o período apontado pela reportagem, cerca de 3,2 mil pontos teriam sido instalados.

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Relatório mostra a aceleração na instalação dos pontos durante o período eleitoral de 2024.

A reportagem afirma ainda que parte dos pagamentos teria sido feita antes da prestação integral do serviço. A diferença apontada entre o valor pago e o serviço efetivamente entregue chegaria a R$ 26 milhões, segundo os dados levantados.

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Sede da UltraIP Telecom em Guaianazes, zona leste de SP: empresa foi contratada para instalar 5 mil pontos de Wi-Fi por R$ 13 milhões.

Além da atuação no Instituto Conhecer Brasil, Karina Ferreira da Gama também aparece como única sócia da Go Up Entertainment, empresa brasileira responsável pela produção de “Dark Horse”.

Mário Frias é apontado em algumas reportagens como um dos produtores do filme, mas o nome que consta em documentos de gravação é Karina Ferreira da Gama. O Intercept apurou que ambos costumam ir ao set de filmagem, que ocupou nesta semana ruas do centro de São Paulo. A Go Up Entertainment é a empresa responsável pela produção e contratação dos profissionais.

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Apesar da produção ser em inglês e a Go Up declarar ter um endereço nos EUA, a empresa é brasileira. E Karina Ferreira da Gama, além de ter profundas conexões com políticos conservadores, tem longa trajetória em projetos multimilionários com dinheiro público e aqui no Brasil.

O Instituto Conhecer Brasil ainda subcontratou mais duas empresas de tecnologia chamadas Complexys e Fast Future. O primeiro contrato, de R$ 8,6 milhões, foi assinado pelo diretor da Complexys, André Feldman. O segundo, de pouco mais de R$ 3 milhões, foi assinado Débora Feldman, que é companheira de André, e assinou como diretora da Fast Future, embora nas redes sociais se apresente como terapeuta holística.

No total, os contratos assinados pelo casal e Karina somaram quase R$ 12 milhões. Segundo uma nota fiscal de R$ 940 mil da Fast Future, os serviços prestados são “gestão técnica da operação”, que inclui “verificação” e “análise” dos equipamentos. A nota fiscal da Complexys tem descrição de serviços idêntica:

À esquerda, a nota fiscal da Fast Future; à direita, da Complexys.

Em um relatório, o ICB anexou fotos dos roteadores, instalados em áreas periféricas da cidade, para mostrar o cumprimento do projeto. No Reclame Aqui, no entanto, um morador afirma que cedeu a sua casa para a instalação de um ponto, mas a internet não funciona. “Realizaram a instalação do aparelho (para a comunidade) em minha residência, e simplesmente sumiram. Já tentei contato através do Whatsapp e telefone e não tenho nenhum retorno da empresa”, afirmou. Segundo o ICB, “apenas 10 pontos encontram-se em processo de reparo”.

O filme, gravado em inglês e com equipe internacional, retrata a trajetória de Jair Bolsonaro até a Presidência da República. A produção tem direção de Cyrus Nowrasteh e conta com Jim Caviezel no papel do ex-presidente.

Segundo documentos citados pela reportagem, especialistas em cinema estimam que a produção possa custar entre R$ 8 milhões e R$ 20 milhões.

A apuração também menciona repasses por meio de emendas parlamentares a entidades ligadas à empresária. Entre os nomes citados estão deputados do PL, partido de Jair Bolsonaro, além de Mário Frias, ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro e atual deputado federal.

Mário Frias também é citado como roteirista do filme e intérprete do médico que atendeu Bolsonaro após a facada sofrida durante a campanha eleitoral de 2018.

Longa trajetória com dinheiro público: as conexões com o mundo evangélico e políticos conservadores

No início de 2020, Karina Ferreira da Gama, então dirigente do ICB, iniciou uma nova empreitada: outra ONG, chamada Academia Nacional de Cultura, a ANC, que também recebeu emendas parlamentares para fazer eventos religiosos.

Em fevereiro de 2023, Karina, no cargo de presidente da ANC, foi recebida no gabinete de Ricardo Nunes em um encontro que contou com a presença da então secretária de Cultura, Aline Torres.

O encontro rendeu frutos: no mês seguinte, ela assinou um documento pedindo uma “parceria” com a secretaria de Cultura e um aporte de R$1,084 milhão para realizar um evento de dança no Ibirapuera a partir de emendas dos então vereadores Atílio Francisco, do Republicanos, e Rinaldi Digilio, do União Brasil. Em maio, menos de um mês depois do pedido, ela recebeu o dinheiro. O evento Mega Dance Musical é promovido pela Força Jovem Universal, o braço jovem da Igreja Universal.

Em outubro de 2025, Karina foi recebida na Casa Civil da prefeitura para uma reunião com chefes de pasta na qualidade de presidente e CEO da Connect Faith, uma feira cristã que envolve tecnologia, inovação e criatividade e reúne palestrantes como o deputado federal Marco Feliciano, do PL paulista.

Outro CNPJ de Karina Ferreira da Gama é a Conhecer Brasil Assessoria Produção e Mkt Cultural, fundada em 2005. Foi com essa empresa que, em 2021 – quando Mário Frias era secretário nacional da Cultura – Karina tentou abrir mais uma para receber dinheiro público: obteve autorização para captar R$ 4,9 milhões para produzir uma série sobre atletas cristãos. O projeto acabou cancelado e não captou nada.

Essa mesma empresa também prestou serviços para a campanha de Mário Frias a deputado federal em 2022 no valor de R$ 54 mil, e para a campanha de Felipe Carmona, o então número 2 da Secretaria de Cultura, no valor de R$ 13 mil.

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Karina (à esquerda) em campanha para a eleição de Mário Frias à Câmara dos Deputados em 2022. Foto: reprodução.

Outra empresa de Karina é a GoUp brasileira, que está produzindo o filme de Bolsonaro. Há ainda uma empresa registrada no exterior com esse mesmo nome também ligada a Karina, segundo dados da Receita Federal. O endereço informado no cadastro é o de um centro comercial de Miami, na Flórida, e o e-mail cadastrado está em nome de Karina Gama.

Dados do registro de empresas da Flórida mostram que a empresa tem dois sócios: Karina Ferreira da Gama e um homem chamado Michael Davis, que também é um dos produtores executivos de “Black Horse”.

No site da GoUp, cujo logo é o mesmo que aparece na callsheet, um documento que reúne todas as informações relevantes para um dia de gravação de “Dark Horse”, a produtora informa um endereço em Los Angeles, na Califórnia. No local funciona outra produtora, a Damascus Road, que tem no histórico filmes B e já produziu outro título de Cyrus Nowrasteh.

Nos últimos dias, Karina Ferreira da Gama pôde ser vista trabalhando diretamente no set de filmagem de “Dark Horse”. As gravações do filme têm sido marcadas pelo sigilo e por acusações de violação de regras do audiovisual.

Na quinta-feira, 4 de dezembro, foi gravada no centro de São Paulo uma de suas principais cenas: a fatídica facada que o então candidato levou durante um comício em Juiz de Fora. A gravação envolveu centenas de pessoas e equipamentos cuja locação chega a milhares de reais por dia.

O Intercept apurou que a produção pediu autorização em uma série de equipamentos públicos para gravar, e em pelo menos um deles não deixou claro do que se tratava o longa – a sinopse divulgada dizia apenas se tratar de um filme sobre um “soldado”. Os responsáveis pela locação foram surpreendidos, no dia da gravação, ao descobrirem que se tratava de um filme sobre Bolsonaro.

Uma reportagem da revista Fórum relatou abusos e agressões no set de filmagem, e indicou que o filme não cumpriu protocolos comuns na contratação de atores no caso de produções estrangeiras, como atender as convenções coletivas de trabalho.

“É inadmissível a gente lidar com esse volume de denúncias de uma produção que vem de fora do país, não cumpre a legislação local, não apresenta os contratos de trabalho para o sindicato de artistas e de técnicos”, disse à revista Fórum Rita Teles, presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões no Estado de São Paulo, o Sated.

Representantes dos trabalhadores de cinema relataram dificuldades em conseguir fazer com que a produtora que se apresenta como estrangeira, cumprisse as regras brasileiras.

Procuradas, a GoUP e as outras empresas e ONGs ligadas à Karina não responderam aos questionamentos do Intercept. A produtora se limitou a enviar as respostas pelo ICB. O espaço segue aberto.

Intercept

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