A CIA estaria por trás de uma série de ataques contra barcos de pesca equatorianos realizados no início deste ano, segundo uma reportagem do The Washington Post.
As operações permaneceram sem autoria oficial durante meses e deixaram oito pescadores desaparecidos, presumidos mortos.
Sobreviventes relataram que homens não identificados, falando inglês, atacaram as embarcações com drones. Antes dos ataques, um avião teria realizado operações de vigilância sobre os barcos.
Segundo s ouvidas pelo Washington Post, os ataques fizeram parte de um programa de “ação encoberta”, expressão usada para designar operações secretas no exterior autorizadas pelo presidente dos Estados Unidos e conduzidas de forma que o envolvimento de Washington não seja reconhecido publicamente.
Ainda não está claro por que os barcos foram escolhidos como alvos nem qual seria o objetivo da operação mais ampla.
Um dos episódios ocorreu em janeiro, quando o barco pesqueiro Fiorella, de aproximadamente 16 metros, foi atingido. Os oito tripulantes desapareceram e são considerados mortos.
Outros dois barcos, o Negra Francisca Duarte II e o Don Maca, foram atacados em março. Todos os pescadores a bordo sobreviveram. Não há evidências de que qualquer uma das embarcações estivesse envolvida em atividades além da pesca.
Sobreviventes disseram ao New York Times que foram atacados por pessoas que usavam distintivos com a bandeira dos Estados Unidos, mas que não apresentavam nenhuma outra identificação oficial.
Dados de rastreamento de voos acrescentaram outro elemento ao mistério. Um avião de patrulha marítima baseado em uma instalação militar em El Salvador teria voado na direção dos três barcos pouco antes dos ataques.
Segundo o New York Times, a aeronave passou perto do Fiorella em quatro ocasiões diferentes, inclusive no dia em que a embarcação desapareceu.
O avião utilizado na vigilância não está registrado em nome do governo americano. Gravações de comunicações com o controle de tráfego aéreo indicam que os pilotos falavam inglês com sotaque americano.
O Washington Post informou que a aeronave havia voado do Tennessee para El Salvador em novembro. A informação levanta a possibilidade de que contratados militares privados tenham sido utilizados para executar os ataques, embora não esteja claro quem operou as embarcações e drones ou quem deu as ordens.
O caso é diferente da campanha pública promovida pelo governo de Donald Trump contra embarcações acusadas de transportar drogas no Caribe e no Pacífico Oriental.
Desde setembro do ano passado, as Forças Armadas dos EUA atacaram cerca de 67 barcos, segundo dados citados na reportagem, deixando 221 mortos. Nesses casos, o Pentágono assumiu publicamente a autoria e frequentemente divulgou imagens das operações nas redes sociais.
As ações contra os chamados “narco barcos” também provocaram críticas de organizações de direitos humanos, que questionam sua legalidade e afirmam que os ataques podem configurar execuções extrajudiciais. O governo Trump sustenta que o uso de força letal é justificável porque os Estados Unidos estão, na prática, em guerra contra os cartéis.
A diferença entre as operações públicas contra suspeitos de narcotráfico e os ataques no Equador aumenta as dúvidas sobre a finalidade da missão secreta.
“Isso levanta a questão de por que seria necessário fazer isso. Qual seria o propósito de todo esse sigilo?”, questionou ao Washington Post um ex-oficial americano que trabalhou na região.
Trump teria ampliado, no ano passado, a autoridade da CIA para realizar operações letais contra traficantes de drogas em países da América Latina.
