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Mídia progressista dos EUA impulsiona candidatos de esquerda do Partido Democrata

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Mídia progressista dos EUA impulsiona candidatos de esquerda do Partido Democrata

Uma nova geração de veículos, podcasts, canais no YouTube e transmissões ao vivo de esquerda está ajudando candidatos progressistas a conquistar espaço nas primárias democratas dos Estados Unidos e a driblar os tradicionais filtros do establishment do partido.

A força desse ecossistema ficou evidente nas recentes disputas eleitorais. Na Pensilvânia, o deputado estadual Chris Rabb, um democrata socialista, derrotou nas primárias um adversário mais moderado. Para ele, participações em programas como The Majority Report with Sam Seder e Breaking Points foram decisivas para ampliar sua projeção.

“Isso me ajuda a aumentar minha visibilidade, minha validação e minha capacidade de arrecadar dinheiro”, disse Rabb à Reuters.

Na terça-feira (4), outro nome em ascensão na esquerda, Abdul El-Sayed, venceu por margem apertada a primária democrata para o Senado em Michigan contra Haley Stevens, candidata apoiada pelo establishment do partido.

El-Sayed entrou na disputa em desvantagem financeira. Seus adversários receberam dezenas de milhões de dólares em publicidade televisiva financiada por grupos pró-Israel e outras organizações externas. Mesmo assim, o candidato progressista venceu em um estado considerado decisivo e que foi conquistado pelo republicano Donald Trump na eleição presidencial de 2024.

A ascensão desses candidatos ocorre paralelamente ao crescimento de uma rede de mídia que combina jornalismo opinativo, ativismo e mobilização política. São veículos e personalidades que defendem pautas como saúde universal, abolição do ICE — a agência de imigração dos EUA — e o fim da ajuda militar americana a Israel.

“Existe público, demanda e fome por pontos de vista diferentes”, afirmou Mehdi Hasan, ex-apresentador da MSNBC e fundador do veículo independente Zeteo, lançado em 2024.

Segundo Hasan, a mesma energia que permitiu ao novo modelo de mídia conquistar audiência também está ajudando candidatos progressistas a construir campanhas competitivas.

Uma audiência em expansão

A esquerda americana sempre teve seus próprios programas e publicações. A diferença agora é a escala alcançada por criadores independentes, justamente quando a influência e a confiança na mídia tradicional estão em queda.

Embora ainda seja muito menor e tenha menos recursos do que o ecossistema de mídia conservador, a rede de podcasters, streamers e veículos digitais progressistas tornou-se uma força relevante dentro do Partido Democrata.

Ela influencia campanhas, arrecadação de recursos e organização de ativistas.

O Zeteo já soma cerca de 700 mil assinantes no Substack, 50% a mais do que há um ano. O The Majority Report with Sam Seder ultrapassou 2 milhões de inscritos no YouTube, enquanto aproximadamente 75% de sua audiência tem menos de 55 anos.

O comentarista e ativista Hasan Piker, uma das figuras mais populares da esquerda digital americana, possui mais de 3 milhões de seguidores na Twitch.

Para estrategistas eleitorais, a vantagem é evidente: os candidatos conseguem participar de conversas longas sobre políticas públicas, algo raro na televisão tradicional, falar diretamente com eleitores e transformar trechos dessas entrevistas em vídeos que circulam rapidamente pelas redes sociais.

“Eu acho que ajudamos a criar entusiasmo desde o início”, disse Sam Seder. Segundo ele, sua audiência reúne muitos ativistas e integrantes de organizações políticas, além de pessoas que trabalham em gabinetes legislativos.

Os candidatos progressistas passaram a circular pelo mesmo circuito de programas e influenciadores, permitindo que o público os conheça por meio de personalidades nas quais já confia, afirmou Jesse Lehrich, estrategista democrata e coapresentador do podcast Nobody Knows Anything.

O movimento também funciona no sentido inverso: candidatos em ascensão ajudam os novos veículos de mídia a ampliar suas próprias marcas.

“É algo interconectado. Não acho que necessariamente um esteja liderando o outro”, disse Hasan.

“Pregando para os convertidos”

Boa parte das personalidades que ganharam espaço na mídia de esquerda nos últimos anos assume abertamente posições partidárias.

Krystal Ball, apresentadora do Breaking Points, participou de uma transmissão ao vivo para arrecadar dinheiro para El-Sayed e outros candidatos progressistas de Michigan.

Hasan Piker, por sua vez, fez campanha presencial na semana passada para Francesca Hong, que tenta se tornar a primeira governadora democrata socialista de Wisconsin. Ele também participou da festa de El-Sayed na noite da eleição em Detroit.

“O trabalho está apenas começando”, escreveu Piker no X enquanto os últimos votos eram contabilizados na terça-feira.

Piker é uma figura controversa. Já manifestou apoio ao Hamas, utilizou o termo “cracker” para se referir a pessoas brancas e afirmou que os Estados Unidos “mereceram o 11 de Setembro”, declaração que posteriormente classificou como inadequada. Ele não respondeu aos pedidos de comentário da Reuters.

Apesar das controvérsias, Piker construiu uma audiência extremamente fiel com suas transmissões diárias na Twitch, nas quais discute livremente temas políticos e sociais. O modelo lembra o de Joe Rogan, um dos mais influentes podcasters de direita dos EUA, que apoiou Trump em 2024.

Hans Noel, professor da Universidade Georgetown, avalia que esses criadores conseguem mobilizar eleitores que consideram a plataforma democrata moderada demais ou pouco inspiradora.

Isso pode se tornar um problema para candidatos como El-Sayed quando precisarem ampliar sua coalizão e conquistar democratas mais moderados nas eleições gerais.

Uma “oposição” dentro do Partido Democrata

O podcast I’ve Had It ilustra outra dimensão dessa transformação.

Jennifer Welch e Angie “Pumps” Sullivan, duas amigas de Oklahoma City, lançaram o programa em 2022 para reclamar de tudo o que as irritava, de celebridades de reality shows aos próprios filhos.

A política entrou no programa durante a campanha presidencial de 2024, quando as duas passaram a atacar Trump com o humor irreverente que caracteriza o podcast.

Em pouco tempo, começaram a entrevistar políticos democratas, incluindo Kamala Harris, e participaram da convenção do partido em Chicago.

Hoje, o programa soma mais de 5,2 milhões de inscritos e seguidores no YouTube, Facebook, Instagram e TikTok.

“Eles vêm até nós para obter notícias e nossa opinião sobre as notícias”, afirmou Welch à Reuters.

El-Sayed participou duas vezes do podcast e recebeu o apoio público de Welch, que descreveu o endosso como uma decisão óbvia.

“Eu acho que a base democrata está muito mais à esquerda do que o establishment percebe”, afirmou. “E acho que candidatos como Abdul são o futuro do Partido Democrata se quisermos ser um partido de oposição.”

O fenômeno revela uma mudança importante na política americana: a esquerda democrata começa a construir sua própria infraestrutura de comunicação, arrecadação e mobilização fora dos grandes veículos tradicionais e das estruturas partidárias.

O resultado é uma relação cada vez mais simbiótica entre candidatos e influenciadores: os políticos ganham audiência e legitimidade, enquanto os criadores de conteúdo passam a exercer influência direta sobre as disputas internas do partido.

A velha máquina democrata, acostumada a controlar os principais canais de comunicação e financiamento político, enfrenta agora uma concorrência que não depende de televisão, grandes jornais ou das lideranças tradicionais de Washington.

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