Irã domina guerra digital contra EUA com memes virais e IA

Expresso Rio
Donald Trump em LEGO – Foto: Divulgação

Em meio ao acirramento das tensões entre Irã e Estados Unidos, um novo campo de batalha vem chamando a atenção de analistas internacionais: a guerra digital. Enquanto o confronto militar domina o noticiário, o país do Oriente Médio tem se destacado por uma ofensiva altamente eficaz nas redes sociais, usando memes, sarcasmo e vídeos produzidos com inteligência artificial para disputar a narrativa global.

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Trump cantor de rock – Foto: Reprodução

O desempenho iraniano nesse ambiente surpreende pela velocidade e pelo alcance. Especialistas apontam que o governo conseguiu mobilizar principalmente públicos jovens, como millennials e integrantes da geração Z, por meio de uma linguagem adaptada à dinâmica das plataformas digitais, marcada por humor ácido, ironia e forte potencial de viralização.

Do lado americano, o cenário é de desgaste político e comunicacional. O presidente Donald Trump aparece como alvo recorrente das peças virais produzidas por perfis ligados ao Irã, em um momento de queda de popularidade e sucessivas controvérsias públicas.

A ofensiva digital não se restringe a perfis anônimos. Contas oficiais, incluindo representações diplomáticas e nomes influentes do regime, como Mohammad Bagher Ghalibaf, passaram a publicar conteúdos estrategicamente pensados para repercutir fora das fronteiras iranianas.

Entre os materiais que mais circularam, estão vídeos gerados por inteligência artificial com estética de animação, além de montagens satíricas envolvendo lideranças ocidentais. Um dos conteúdos mais compartilhados mostra Trump como um astro do rock dos anos 1980 em formato de paródia musical, alcançando forte engajamento em poucas horas.

Outro vídeo amplamente repercutido traz a imagem de um cachorro olhando diretamente para a câmera, em tom de deboche às ameaças de destruição feitas pelos Estados Unidos. A publicação foi interpretada como uma resposta irônica e calculada à retórica militar americana.

Segundo especialistas em comunicação política, o Irã entendeu rapidamente que guerras modernas são travadas em duas frentes: a militar e a informacional. A antropóloga Narges Bajoghli destaca que o país conseguiu ocupar espaços importantes nas redes sociais e influenciar diferentes grupos políticos dentro dos próprios Estados Unidos.

A estratégia tem como base a percepção de que o Irã enfrenta resistência histórica na mídia tradicional americana, frequentemente associado a narrativas de terrorismo e instabilidade geopolítica. Diante disso, o regime passou a apostar no “hackeamento” do debate público por meio de temas sensíveis e conteúdos com alto poder viral.

O movimento também alcança o mundo árabe, onde a disputa por influência regional se intensifica, especialmente em discussões sobre soberania e o papel de Israel como potência militar apoiada por Washington.

Em contraste, a comunicação americana tem enfrentado dificuldades para reagir na mesma velocidade, em parte por limitações institucionais e por estratégias voltadas prioritariamente ao público doméstico. O resultado é um evidente desequilíbrio no campo simbólico e digital.

Apesar do sucesso nas redes, analistas ponderam que memes e vídeos de IA, sozinhos, não são capazes de transformar por completo a imagem internacional do Irã, ainda fortemente marcada por denúncias de repressão interna e restrições à liberdade de imprensa.

Ainda assim, o impacto sobre a percepção pública sobretudo entre os mais jovens pode produzir efeitos duradouros no debate internacional.

A relevância desse campo já havia sido antecipada pelo líder supremo Ali Khamenei, que afirmou em 2024 que a mídia pode ser mais eficaz do que armas tradicionais na disputa por corações e mentes.

Neste momento, ao menos no ambiente digital, o Irã demonstra vantagem clara sobre os Estados Unidos na batalha por narrativas globais.

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