Trump culpa América Latina por drogas, mas ignora crise nos EUA

Expresso Rio

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a direcionar críticas à América Latina ao tratar da crise das drogas em território americano. No entanto, dados oficiais e relatórios recentes apontam que o próprio consumo interno dos EUA segue como principal motor do tráfico internacional.

Relatório do Departamento de Estado dos Estados Unidos classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) como a principal ameaça à segurança nacional do Brasil, destacando a atuação da organização em ao menos 22 estados brasileiros e presença em outros 16 países. O documento também indica que o Brasil ocupa a segunda posição mundial no consumo bruto de cocaína, ficando atrás apenas dos próprios Estados Unidos.

Durante reunião com o presidente do Banco Central brasileiro, Gabriel Galípolo, autoridades americanas informaram a intenção de classificar facções como o Comando Vermelho (CV) e o PCC como organizações terroristas proposta que enfrenta resistência do governo brasileiro. A justificativa é ampliar mecanismos de combate financeiro, como bloqueio de recursos e rastreamento de lavagem de dinheiro.

Apesar disso, o cenário aponta para um fator central: a forte demanda do mercado norte-americano. O consumo elevado de entorpecentes nos Estados Unidos sustenta uma cadeia global que envolve produção, transporte e distribuição em diversos continentes.

As autoridades brasileiras, por exemplo, têm intensificado operações contra o tráfico internacional. Somente em 2020, a Polícia Federal apreendeu mais de 21 toneladas de cocaína, muitas delas destinadas aos mercados da Europa, África e dos próprios Estados Unidos.

A crise interna americana reforça esse contexto. Dados do Departamento de Saúde dos EUA mostram que, em 2020, mais de 100 mil pessoas morreram por overdose. O fentanil um opioide sintético altamente potente aparece como principal responsável. A substância, muitas vezes produzida por cartéis mexicanos, tem baixo custo de fabricação e alto potencial lucrativo, ampliando ainda mais sua disseminação.

A estratégia adotada pelo governo Trump tem priorizado ações de combate à oferta, incluindo operações militares e patrulhamento marítimo no Caribe e no Pacífico. No entanto, essas medidas não atingem diretamente as causas estruturais do problema.

Fatores como desigualdade social, dificuldades de acesso a tratamento de saúde mental e pressão econômica são apontados como elementos que contribuem para o avanço da dependência química no país. Nesse contexto, o consumo interno segue impulsionando toda a engrenagem do tráfico internacional.

Enquanto isso, especialistas e análises independentes destacam que soluções mais eficazes passam por políticas públicas voltadas à saúde, tratamento de dependentes e regulação de substâncias além do enfrentamento das vulnerabilidades sociais.

Com um dos maiores mercados consumidores do mundo, os Estados Unidos ocupam papel central na dinâmica global do tráfico de drogas. Enquanto o foco permanecer voltado apenas para a repressão externa, sem enfrentar as causas internas do consumo, o ciclo tende a se manter alimentando uma crise que ultrapassa fronteiras.

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