O governo do estado do Rio de Janeiro suspendeu o processo de compra do helicóptero militar Sikorsky UH-60L Black Hawk, anunciado anteriormente como uma das principais aquisições da Polícia Militar para reforçar operações em áreas de confronto no estado. A decisão foi tomada após suspeitas envolvendo o processo de licitação e indícios de que a aeronave poderia ser usada.
A aeronave, considerada um modelo de alta resistência e blindagem, teria custo estimado em US$ 12,6 milhões, equivalente a cerca de R$ 70,3 milhões na cotação da época do anúncio feito pelo ex-governador Cláudio Castro. A revisão foi determinada pela atual gestão estadual durante uma auditoria interna sobre contratos e processos administrativos.
Segundo informações levantadas pelo governo do Rio de Janeiro, empresas participantes da concorrência teriam ligação com o mesmo empresário do setor aeronáutico, Fernando Carlos da Silva Telles, conhecido como “Tico-Tico”. Ele aparece como representante da empresa Flyone, enquanto a vencedora da concorrência foi a Blue Air Táxi Aéreo.
Documentos da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) apontam ainda que Daniel de Sousa Freitas da Silva Telles, sobrinho de Fernando Telles, ocupa o cargo de diretor de operações da Blue Air. A proximidade entre as empresas passou a ser analisada pela equipe técnica do governo durante a auditoria dos contratos.
O caso também envolve investigações conduzidas pelo Ministério Público Federal (MPF), que apura acidentes com aeronaves da Flyone no Acre, período em que Fernando Telles era ligado à empresa.
Além das suspeitas envolvendo o processo licitatório, integrantes do governo estadual avaliam que o helicóptero pode não ser adequado para operações urbanas no Rio de Janeiro. Com cerca de quatro toneladas, o Black Hawk exige áreas maiores para pousos e manobras, o que dificultaria o uso em comunidades e regiões densamente povoadas.
Outro ponto levantado é o impacto causado pela força das hélices em voos de baixa altitude. Há preocupação sobre possíveis danos a telhados e estruturas em áreas urbanas durante operações policiais. O modelo pode ultrapassar os 350 km/h.
Apesar do anúncio oficial da compra ter ocorrido no início do ano, o governo informou que nenhum pagamento foi realizado até o momento. A equipe do governador em exercício Ricardo Couto concluiu preliminarmente que recursos estaduais ainda não haviam sido liberados para a aquisição da aeronave.
Mesmo sem a conclusão da compra, policiais militares chegaram a ser enviados ao estado do Alabama, nos Estados Unidos, para treinamento operacional no modelo Black Hawk. O contrato previa gasto superior a US$ 1 milhão apenas com a capacitação técnica da equipe.
A Blue Air Táxi Aéreo, escolhida para fornecer a aeronave, atua oficialmente nos setores de táxi aéreo e transporte aeromédico, segundo registros da Anac. A empresa opera com aeronaves adaptadas para remoção de pacientes em situações de emergência.
As investigações internas também analisam possíveis conexões entre empresas do setor aeronáutico ligadas ao processo. Em 2025, a Ambipar adquiriu a Flyone e posteriormente demitiu Fernando Telles.
Já em 2026, Renato Carriço dos Santos, representante da Blue Air, apareceu ao lado de Cláudio Castro e do secretário da Polícia Militar do Rio, coronel Marcelo de Menezes, durante o anúncio oficial da compra do helicóptero militar.
Carriço trabalhou como controlador técnico de manutenção da Aeronáutica e teve passagem pela empresa Ancoratek Manutenção de Aeronaves, companhia que também pertenceu a Fernando Telles. A empresa é investigada pela Marinha após um acidente com helicóptero ocorrido em 2023 na Base Naval de São Pedro da Aldeia, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro.
Em nota oficial, o governo do estado informou que iniciou um amplo processo de revisão de contratos administrativos, considerado o primeiro ciclo de auditoria da atual gestão.
Segundo o comunicado, a compra do helicóptero Sikorsky UH-60L Black Hawk está entre os processos analisados sob critérios técnicos e jurídicos. Enquanto durar a avaliação de conformidade, o procedimento seguirá suspenso.




