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Política

Ex-chefe da FAB relata resistência ao plano de golpe de Bolsonaro e bastidores do 8 de Janeiro

Por 4 min de leitura Expresso Rio
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O tenente-brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB) durante o governo Jair Bolsonaro, decidiu registrar em livro sua versão sobre um dos períodos de maior tensão política e institucional do país. A obra, intitulada “Eu disse não”, tem lançamento previsto para setembro pela Autêntica Editora.

No livro, Baptista Junior afirma ter formado uma espécie de “trincheira antigolpista” para resistir às pressões que, segundo seu relato, buscavam envolver integrantes das Forças Armadas em uma ruptura institucional. O período descrito antecedeu os ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023.

Com quase cinco décadas de carreira militar e mais de 4.500 horas de voo como piloto de caça, o oficial comandou a Aeronáutica entre abril de 2021 e janeiro de 2023. Em seu relato, ele apresenta os acontecimentos a partir da perspectiva de quem participou diretamente das decisões tomadas pela cúpula militar naquele período.

Três momentos teriam frustrado tentativa de golpe

Baptista Junior descreve três episódios que, segundo ele, foram decisivos para impedir o avanço de uma tentativa de ruptura. O militar confirma a realização de reuniões no Palácio da Alvorada e no Ministério da Defesa nas quais teriam sido discutidas medidas de exceção e os termos de uma minuta.

De acordo com o relato, o ex-comandante da Aeronáutica se recusou a receber uma cópia do documento. Ele também afirma que o general Freire Gomes, então comandante do Exército, alertou Bolsonaro de que poderia ser preso caso insistisse em uma tentativa de impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva.

O militar também relata que o almirante Almir Garnier, então comandante da Marinha, teria colocado tropas da Força à disposição do plano. O testemunho de Baptista Junior foi citado como relevante no processo que tramitou no Supremo Tribunal Federal (STF) e que resultou na condenação de Jair Bolsonaro.

Ex-comandante diz que decisões individuais foram decisivas

Na avaliação apresentada no livro, a preservação das instituições democráticas em 2022 não ocorreu de maneira automática. Para Baptista Junior, decisões individuais tomadas por oficiais de alta patente em posições estratégicas tiveram papel importante para manter as Forças Armadas afastadas de uma ruptura.

O ex-comandante afirma que decidiu escrever a obra após analisar pesquisas de opinião que, segundo ele, mostraram a existência de uma parcela significativa da sociedade favorável a uma intervenção militar para anular o resultado das eleições de 2022.

Segundo o militar, uma pesquisa do AtlasIntel realizada entre 6 e 9 de janeiro de 2023 apontou que 39,7% dos entrevistados não acreditavam na vitória de Lula sobre Bolsonaro, enquanto 36,8% declararam apoio a uma intervenção militar que anulasse o resultado eleitoral.

Discurso de Bolsonaro após a eleição é relembrado

Um dos trechos reproduzidos no material trata do pronunciamento de Jair Bolsonaro em 1º de novembro de 2022, após a confirmação da vitória de Lula nas eleições presidenciais. Segundo Baptista Junior, os comandantes militares optaram por não acompanhar o então presidente até a entrada do Palácio da Alvorada, preservando a neutralidade institucional das Forças Armadas.

No discurso, Bolsonaro agradeceu aos eleitores que votaram nele e afirmou que as manifestações populares eram resultado de “indignação e sentimento de injustiça” em relação ao processo eleitoral. Também declarou que os movimentos deveriam ser pacíficos e disse que continuaria cumprindo a Constituição.

Para Baptista Junior, porém, o pronunciamento não representou necessariamente o encerramento da crise. Em sua avaliação, as declarações deixaram espaço para a continuidade de mobilizações e transferiram às Forças Armadas uma pressão política que, segundo ele, não deveria recair sobre as instituições militares.

O ex-comandante compara o período a um voo turbulento e afirma que os acontecimentos daquele momento só podem ser compreendidos a partir das decisões tomadas anteriormente, incluindo sua chegada ao comando da Aeronáutica, em março de 2021.

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