A cidade de Braunau am Inn, na Áustria, inaugurou nesta quarta-feira (22) uma delegacia de polícia no edifício onde Adolf Hitler nasceu, em uma iniciativa que busca retirar do imóvel o simbolismo associado ao líder nazista e impedir que o local continue servindo como ponto de encontro ou “peregrinação” de grupos extremistas.
Segundo reportagem do portal g1, a transformação do prédio marca o desfecho de um debate que se arrastou por anos no país sobre qual seria a destinação mais adequada para um dos endereços historicamente mais sensíveis da Europa. O governo austríaco defende que o novo uso reforça valores democráticos e reduz a possibilidade de glorificação do nazismo. Já críticos da iniciativa afirmam que a medida pode minimizar a importância histórica do local e enfraquecer a preservação da memória sobre os crimes cometidos durante o regime de Hitler.
A casa, localizada na fronteira entre Áustria e Alemanha, abrigava até 2017 uma instituição de caridade voltada ao atendimento de pessoas com deficiência. Naquele ano, o imóvel foi desapropriado pelo governo austríaco, que dois anos depois anunciou a reforma do prédio e sua conversão em uma unidade da polícia federal.
Segundo o Ministério do Interior da Áustria, o principal objetivo da mudança sempre foi eliminar qualquer associação simbólica entre o imóvel e Adolf Hitler.
“O objetivo foi evitar qualquer associação com Adolf Hitler, para retirar esse caráter mítico [do local]”, afirmou Stephan Mlczoch, chefe do departamento de história do ministério, durante visita ao prédio com jornalistas.
A fachada do edifício recebeu apenas uma discreta identificação com a palavra “Polizei” (“Polícia”, em alemão), sem qualquer referência ao passado do imóvel.
Antes da reforma, o único elemento que lembrava a história do local era uma pedra memorial instalada na calçada, trazida do antigo campo de concentração de Mauthausen. A inscrição “Fascismo nunca mais” permanece no local, embora não mencione diretamente Hitler.
As autoridades austríacas optaram por manter essa referência como símbolo permanente de repúdio ao regime nazista.
Edifício tornou-se símbolo do culto ao ditador
Apesar da notoriedade internacional, Hitler viveu na casa por apenas algumas semanas após seu nascimento, em 1889, antes de sua família se mudar para outra residência.
Ainda assim, durante o Terceiro Reich, o imóvel ganhou enorme valor simbólico.
O regime nazista transformou a chamada “casa de nascimento do Führer” em um museu de arte, incorporando o edifício ao culto à personalidade promovido em torno de Hitler.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a construção continuou sendo alvo de debates sobre qual deveria ser sua função na sociedade austríaca, justamente para evitar que se transformasse em um local de exaltação ao nazismo.
Governo diz que polícia representa o oposto do nazismo
Durante a cerimônia de inauguração da nova delegacia, o ministro do Interior da Áustria, Gerhard Karner, defendeu a escolha do prédio como sede policial.
“A polícia atual, nossa polícia federal austríaca, é o exato oposto do simbolismo ligado a este local. Nossa polícia representa a democracia e o Estado de Direito”, afirmou.
Segundo autoridades locais, o fluxo de visitantes permanece constante, principalmente turistas interessados na história da cidade.
Embora muitas pessoas parem para fotografar o prédio, manifestações explícitas de apoio ao nazismo tornaram-se menos frequentes nos últimos anos.
As autoridades ressaltam que a legislação austríaca proíbe expressamente a saudação nazista e qualquer símbolo relacionado ao regime de Hitler.
Projeto divide sobreviventes do Holocausto
Apesar da posição do governo, a transformação da casa em delegacia não alcançou consenso entre entidades ligadas à preservação da memória do Holocausto.
Robert Eiter, integrante de um comitê austríaco de sobreviventes do Holocausto e da Rede Contra o Racismo e o Extremismo de Direita, considera que a iniciativa dificilmente impedirá visitas de grupos neonazistas.
“O mundo não vai esquecer onde nasceu o maior assassino em massa da história. A Wikipédia não vai mudar isso”, afirmou.
Segundo ele, não há expectativa de redução significativa das visitas de simpatizantes do nazismo a Braunau.
A crítica também foi reforçada pelo Comitê de Mauthausen, principal organização de sobreviventes do Holocausto na Áustria.
Para seus representantes, o país deveria utilizar o imóvel como espaço permanente de reflexão sobre os crimes cometidos pelo regime nazista.
“Todo ano, no memorial do campo de concentração de Mauthausen, há uma cerimônia para dizer: nunca mais. E em Braunau estão dizendo: vamos esquecer o mais rápido possível”, declarou Robert Eiter.
Moradores demonstram opiniões divididas
Entre os habitantes de Braunau am Inn, as opiniões sobre o novo uso do prédio também variam.
O prefeito Johannes Waidbacher afirmou acreditar que a maior parte da população aceitou a solução adotada.
“No geral, os moradores de Braunau aceitaram e conseguem conviver com isso”, disse.
Segundo ele, uma comissão formada para discutir o destino do imóvel havia sugerido que o espaço recebesse funções administrativas ou assistenciais.
Na avaliação do prefeito, manter uma entidade beneficente no prédio acabaria tornando-o excessivamente acessível ao público.
“Acho que não é uma má abordagem, mas se vai funcionar como todos esperamos, teremos que esperar para ver”, afirmou.
Alguns moradores demonstraram preferência por outro destino para o imóvel.
“Eu teria preferido que fizessem outra coisa, mas é o que é”, declarou Irene, de 74 anos, lamentando a saída da instituição de caridade que funcionava anteriormente no edifício.
Outros, porém, apoiaram a iniciativa.
“É ótimo, uma boa ideia”, disse o corretor de imóveis Thomas Spreitz. “De vez em quando havia grupos (neonazistas) ali, e agora isso é coisa do passado.”
Áustria amplia debate sobre sua própria história
A inauguração da delegacia também reacende um debate histórico sobre a relação da Áustria com o passado nazista.
Durante décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, o país sustentou oficialmente a narrativa de que havia sido a primeira vítima da expansão de Adolf Hitler, ao ser anexado pela Alemanha em 1938.
Nos últimos anos, porém, autoridades austríacas passaram a reconhecer de forma mais explícita que parte da população local também participou ativamente da disseminação do nazismo e da estrutura do regime.