As salas VIP dos aeroportos brasileiros estão cada vez mais parecidas com aquilo que deveriam evitar: salas de espera lotadas, filas na porta, comida pior e passageiros disputando espaço para aproveitar um benefício pelo qual, muitas vezes, já gastaram uma pequena fortuna.
Em alguns cartões premium, o cliente precisa movimentar R$ 30 mil ou mais para desbloquear determinadas condições de acesso. O problema é que cumprir a meta não reserva cadeira, não garante entrada imediata e muito menos assegura uma experiência minimamente exclusiva.
Quando o lounge chega à capacidade máxima, o passageiro pode simplesmente entrar numa fila ou numa lista de espera. Ou seja: ele fez a sua parte — pagou anuidade, concentrou gastos, cumpriu as regras — mas ainda precisa torcer para haver espaço.
É a grande contradição do negócio das salas VIP: o banco controla quem tem direito ao benefício; o aeroporto controla quem consegue usá-lo.
Aplicativos informam quais salas estão disponíveis, os horários e o saldo de visitas. Mas nenhum deles garante que haverá uma poltrona quando o passageiro chegar ao terminal.
E a situação fica ainda mais absurda quando a fila para entrar demora tanto que o cliente começa a correr o risco de perder o próprio voo.
Se todo mundo é VIP, ninguém é VIP
A promessa de exclusividade perdeu força à medida que os cartões premium transformaram as salas VIP em ferramenta de fidelização.
O resultado é previsível: mais cartões oferecem o benefício, mais passageiros aparecem e a estrutura física continua limitada.
As filas aumentaram, enquanto a experiência oferecida por algumas salas deixou de justificar o discurso de luxo. Comida mais limitada, espaços cheios, dificuldade para encontrar lugar e atendimento pressionado passaram a fazer parte da experiência de muitos viajantes.
Desde julho de 2026, o Santander passou a adotar metas diferentes de movimentação para seus cartões.
Até junho, alguns produtos contemplados exigiam R$ 3 mil somados nas três últimas faturas. Com a mudança, a exigência financeira aumentou drasticamente em determinadas modalidades.
No Santander Unlimited, por exemplo, passou a ser exigida média mensal de R$ 10 mil. O cartão oferece utilização gratuita e sem limite da LoungeKey e da sala Mastercard Black de Guarulhos na versão Mastercard. No Visa Infinite, o benefício alcança os espaços do Visa Airport Companion. O titular ainda possui oito entradas anuais para convidados.
No Santander Unique, a exigência corresponde à metade da movimentação do Unlimited. O cliente recebe duas visitas anuais por cartão pela rede correspondente à bandeira. A partir da terceira utilização, há cobrança.
O Santander AAdvantage Black segue a faixa intermediária e oferece quatro entradas anuais pela LoungeKey, além da sala Mastercard de Guarulhos.
Já o Gol Smiles Santander Infinite adota a mesma faixa intermediária, com uma visita anual pelo Visa Airport Companion e acesso às salas próprias da companhia em Guarulhos e no Galeão.
O cartão precisa estar ativo e as faturas, em dia. Gastos dos adicionais entram na soma do titular, mas cada adicional precisa registrar ao menos uma compra no período para preservar o benefício.
E há um detalhe importante: a condição é recalculada a cada fechamento de fatura. Se o cliente não atingir a meta, as visitas gratuitas podem ser suspensas. A entrada ainda pode ser feita mediante pagamento.
A exigência mínima não se aplica aos clientes do Santander Private Banking.
Na prática, portanto, não basta ter um cartão com cara de cartão premium. Dois clientes podem aparecer com produtos sofisticados na carteira e chegar à mesma sala. Só um deles, porém, poderá ter a gratuidade liberada conforme as regras daquele período.
C6 Carbon também transforma sala VIP em prêmio por gasto
O C6 Carbon segue lógica semelhante. O acesso varia conforme a quantidade de dinheiro movimentada no cartão.
Com R$ 15 mil acumulados no em três meses, o cliente pode ter utilização sem limite das salas Mastercard Black do Terminal 3 de Guarulhos.
Com média mensal de R$ 20 mil durante três meses, o benefício se amplia para o Espaço C6 Bank, DragonPass e W Premium sem limite no mês seguinte.
Há ainda um pacote regular de quatro visitas anuais, compartilhadas entre titular, adicionais e acompanhantes.
Para quem mantém mais de R$ 1 milhão investido, existe utilização sem limite dos espaços previstos para essa categoria.
A diferença mostra como o lounge deixou de ser simplesmente um benefício do cartão e virou uma espécie de recompensa financeira: quanto mais dinheiro o cliente concentra na instituição, maior a quantidade de portas que pode abrir.
Cartão liberado não significa cadeira disponível
Mastercard e Visa deixam claro que o acesso está sujeito à capacidade dos espaços.
Nas salas Mastercard de Guarulhos, quando a capacidade máxima é atingida, pode ser adotado sistema de rotatividade. O passageiro informa o telefone, entra na fila e aguarda a saída de outros clientes.
A Visa também prevê restrições quando a lotação impede a entrada de novos visitantes.
O passageiro pode ter cartão autorizado, visitas gratuitas disponíveis e estar dentro do horário permitido. Mesmo assim, pode ouvir da recepção que precisa esperar.
O Santander recomenda verificar previamente a disponibilidade. Os aplicativos mostram salas, horários, regras e saldo de visitas, mas não reservam uma cadeira.
A fila pode ser mais perigosa que parece
Existe uma diferença fundamental entre esperar numa sala VIP e esperar em praticamente qualquer outro estabelecimento: o avião não espera.
O passageiro ainda precisa deixar o lounge, atravessar o aeroporto e chegar ao portão de embarque dentro do horário.
Se a fila demora 20, 30 ou 40 minutos, a suposta vantagem pode simplesmente desaparecer.
O cliente pode ter pago anuidade, movimentado dezenas de milhares de reais e conseguido finalmente entrar — apenas para descobrir que precisa sair quase imediatamente para não perder o voo.
As próprias regras de permanência tentam estimular a rotatividade. No Visa Infinite Lounge, por exemplo, a permanência pode chegar a três horas e o visitante pode levar até três acompanhantes, conforme as condições aplicáveis.
Nas salas Mastercard de Guarulhos, acompanhantes podem ser admitidos mediante cobrança de R$ 200 por pessoa.
O passageiro pode assumir três compromissos diferentes: manter o cartão, concentrar gastos e pagar por convidados ou visitas extras.
Nenhum deles garante uma poltrona.
Dependendo do cartão, o benefício pode significar cadastro em uma plataforma, um número limitado de visitas, utilização compartilhada com acompanhantes, acesso condicionado ao volume de gastos ou simplesmente autorização para entrar mediante pagamento.
No C6 Black, por exemplo, determinadas salas podem ser utilizadas mediante pagamento. Pela LoungeKey, a cobrança indicada é de US$ 35 por visita.
Ou seja: o cartão pode dar acesso à rede sem necessariamente pagar pela visita.
Também existem diferenças de terminal, horário e parceria. Ter uma visita disponível no aplicativo não significa que a sala mais conveniente para o passageiro aceite aquele programa.
É preciso verificar, antes de viajar, quantas entradas estão realmente incluídas, quem pode utilizá-las, quais aeroportos participam, quais gastos mantêm a gratuidade e quanto custa cada visita adicional.
Os bancos sabem exatamente quanto o cliente gastou. Sabem se a fatura foi paga. Sabem quantos cartões adicionais estão ativos. Sabem quantas visitas foram utilizadas.
O passageiro, entretanto, chega ao aeroporto sem saber quantas pessoas estarão esperando na porta, quantos lugares estarão disponíveis ou quanto tempo levará para entrar.



